Tornei-me tutor das minhas irmãs gémeas após a morte da minha mãe… mas o que a minha noiva fez depois deixou-me destroçado.

A resposta foi apenas o silêncio.

Logo depois, ouvi um soluço baixo, quase sufocado.

— Pare de chorar, Maya — disse Jenna com frieza. — Estou avisando: se você derramar mais uma lágrima, vou pegar todos os seus cadernos e jogar no lixo. Já passou da hora de você crescer e parar de inventar essas historinhas sem sentido.

— Mas nós não queremos ir embora… — sussurrou Maya com a voz trêmula. — Queremos continuar morando com o James. Ele é o melhor irmão do mundo.

Meu estômago se contraiu como se tivesse levado um soco.

— Você não está em posição de querer nada — respondeu Jenna sem demonstrar qualquer compaixão. — Agora subam e façam a lição de casa. Com sorte, dentro de algumas semanas vocês deixarão de atrapalhar a minha vida e eu poderei voltar a organizar o casamento. Não se preocupem, vocês provavelmente serão convidadas. Mas não criem expectativas. Não serão daminhas de honra nem nada parecido.

Ouvi passos rápidos subindo a escada.

Pés descalços.

Apressados.

Cheios de medo.

Poucos segundos depois, uma porta bateu com força.

Continuei imóvel na entrada da casa, incapaz até de respirar. As palavras dela pesavam sobre mim como toneladas de concreto. Eu queria entrar na cozinha, confrontá-la naquele instante… mas me contive.

Precisava ouvir mais.

Precisava ter certeza absoluta de que aquilo não era um mal-entendido.

Então, de repente, a voz dela mudou completamente.

Ficou leve.

Descontraída.

Quase divertida.

Ela estava falando ao telefone.

— Finalmente elas saíram daqui — disse rindo baixinho. — Karen, eu juro que estou enlouquecendo. Passo o dia inteiro fingindo que sou uma mãezinha perfeita. É cansativo demais.

Ela deu outra risada.

— O James continua adiando o casamento. Tenho certeza de que é por causa das meninas. Mas, assim que ele concluir a adoção, elas serão problema exclusivamente dele, não meu. É justamente por isso que elas precisam desaparecer antes. A entrevista final com a assistente social está chegando.

Precisei apoiar a mão na parede para não perder o equilíbrio.

— A casa? O dinheiro do seguro? Tudo isso deveria ser nosso! Só preciso fazer o James acordar para a realidade e convencê-lo a colocar a casa no meu nome. Depois disso, sinceramente, pouco me importa o destino daquelas meninas. Vou transformar a vida delas num inferno até ele desistir. No final, esse ingênuo vai acreditar que entregar as duas foi ideia dele desde o começo.

Meu peito travou.

O ar simplesmente desapareceu.

— Eu não vou desperdiçar minha juventude criando os restos da vida de outra pessoa, Karen. Eu mereço muito mais do que isso.

Sem fazer qualquer barulho, recuei alguns passos e fechei a porta da frente exatamente como estava.

Fiquei sentado dentro do carro durante vários minutos.

Olhava para meu reflexo no para-brisa.

Meu rosto estava completamente pálido.

Os olhos vazios.

A raiva queimava por dentro.

Naquele instante, tudo fez sentido.

Aquilo não tinha sido um comentário impulsivo.

Era um plano cuidadosamente preparado.

Cada lanche que ela fazia.

Cada trança que prendia no cabelo das meninas.

Cada abraço.

Cada sorriso.

Cada demonstração de carinho.

Tudo fazia parte de uma encenação.

Nunca existiu amor verdadeiro.

Pensei nos diários de Maya, organizados com tanto cuidado, cheios de histórias que ela escondia de todo mundo.

Lembrei de Lily, com as mãos cobertas de terra enquanto plantava flores perto da cerca, sussurrando para elas como se realmente acreditasse que possuíam algum tipo de magia.

Recordei o jeito das duas dizendo «boa noite» ao mesmo tempo, todas as noites.

Jenna enxergava tudo aquilo.

E, mesmo assim, via apenas um peso do qual queria se livrar.

Apertei o volante com tanta força que meus dedos ficaram brancos.

Minha mandíbula travou.

Meu peito doía.

Naquele momento compreendi que aquilo não terminaria com uma simples discussão.

Seria o fim definitivo da nossa história.

Dirigi sem destino durante algum tempo.

Comprei uma pizza para as meninas.

Depois voltei para casa fingindo que meu dia havia sido absolutamente comum.

— Oi, amor. Cheguei.

Jenna apareceu imediatamente com um sorriso impecável.

Beijou-me como se nada tivesse acontecido.

Ela tinha cheiro de coco…

…e de mentira.

Naquela noite, depois que Lily e Maya adormeceram, sentei ao lado dela no sofá e soltei um longo suspiro.

— Jenna… talvez você estivesse certa.

Ela virou o rosto rapidamente.

— Certa sobre o quê?

Baixei os olhos, fingindo hesitação.

— Sobre as meninas. Talvez eu realmente não consiga cuidar delas sozinho. Talvez… talvez seja melhor procurar uma família que possa oferecer tudo o que elas precisam. Elas merecem uma mãe de verdade… não nós. No fundo, somos apenas um substituto temporário.

Os olhos dela brilharam imediatamente.

— Ah, meu amor… — disse ela, segurando minhas mãos. — Essa é uma decisão madura. Acredite, será o melhor para todos nós.