— Ah, meu filho… não precisa disso. Estou acostumada aqui. Não conheço ninguém na cidade. Só vou atrapalhar vocês.
— Atrapalhar? Que conversa é essa, mãe?
Seu tom ganhou uma impaciência familiar.
— É obrigação de um filho cuidar da mãe. Além disso, e se algo acontecer com você aí sozinha? Quem perceberia? Já tomei minha decisão. O quarto já está pronto.
A maneira como ele disse “já tomei minha decisão” fez um arrepio percorrer minha espinha. Era exatamente como o pai dele falava.
Mesmo assim, tentei insistir com delicadeza.
— Julian, querido, eu sei que você se preocupa comigo, mas sou velha demais para mudar de vida agora. Não terei amigos, nem jardim, nem nada para fazer.
— Claro que terá. Clara vai sair com você. Vocês podem passear juntas. Espera, vou passar o telefone para ela.
Após alguns segundos de silêncio, ouvi a voz suave de Clara.
— Oi, mãe.
Imediatamente senti meu coração relaxar um pouco.
— Olá, querida.
— Por favor, venha morar conosco. O apartamento é grande, e vai ser muito melhor com você aqui. Julian vive preocupado com sua saúde. Eu também vou cuidar da senhora. Vamos conversar bastante, cozinhar juntas… vai ser muito bom.
Clara possuía uma doçura impossível de ignorar. Mas por trás da delicadeza, eu ainda conseguia perceber algo silencioso: submissão. A decisão havia sido do meu filho. Ela apenas concordara.
Suspirei profundamente. Dentro de mim acontecia uma verdadeira batalha. Parte de mim desejava permanecer na minha casa simples, vivendo em paz. Outra parte sentia o peso da obrigação e o medo de contrariar Julian.

Eu conhecia a raiva de um homem autoritário. Já havia sobrevivido àquilo uma vez.
— Está bem — respondi finalmente. — Vou preparar minhas coisas.
— Que ótimo! — disse Clara, feliz. — Julian irá buscá-la neste fim de semana.
Depois da ligação, fiquei parada no jardim observando minhas plantas em silêncio. Nos dias seguintes, comecei a separar meus pertences. Não havia muita coisa: algumas roupas antigas, meus livros preferidos e um álbum de fotografias já desgastado pelo tempo.
Enquanto folheava aquelas páginas cheias de memórias, vi imagens de Julian ainda criança, sorrindo inocentemente. Meu coração amoleceu. Talvez eu estivesse exagerando. Afinal, ele era meu filho. Talvez aquilo fosse apenas amor e preocupação.
Despedi-me dos vizinhos, das amigas com quem conversava diariamente e da pequena cidade que conhecia como a palma da minha mão. Todos diziam que eu era uma mulher de sorte por ter um filho disposto a cuidar de mim na velhice.
Eu apenas sorria, embora aquele sorriso nunca fosse completo.
No fim de semana, Julian apareceu dirigindo um luxuoso sedã preto reluzente. Vestindo um terno elegante, ele parecia o retrato perfeito do sucesso. Por um instante, senti orgulho ao vê-lo daquela forma. Ele ajudou com minhas malas, perguntou diversas vezes se eu estava confortável e demonstrou uma atenção quase exagerada.
Clara também estava presente, sorridente e carinhosa, e por alguns momentos consegui esquecer minhas preocupações.
— Mãe, olha o que comprei para você.
Julian abriu o porta-malas mostrando várias caixas de vitaminas e suplementos caros.
— Ah, meu filho, não precisava gastar tanto comigo.
— Dinheiro não é problema, mãe. O problema é tempo. Só fico tranquilo sabendo que você está perto de mim.
A viagem começou. Aos poucos, deixamos para trás as estradas tranquilas, os campos vazios e minha velha casa. Conforme nos aproximávamos da cidade, enormes prédios começaram a surgir diante das janelas do carro. O movimento intenso, o barulho e a agitação urbana me deixaram desconfortável.
O apartamento de Julian e Clara ficava no décimo oitavo andar de um condomínio luxuoso. Era muito maior do que eu imaginava. O chão brilhava impecavelmente, os móveis pareciam caríssimos e tudo transmitia riqueza e sofisticação.
Julian me conduziu até um quarto pequeno, porém muito confortável, cuidadosamente preparado para mim. Havia uma cama macia, uma televisão moderna, ar-condicionado e uma grande janela com vista para um parque verdejante que parecia escapar do caos da cidade.
— Este será o seu quarto, mãe. Instalei tudo para que fique confortável. Se precisar de qualquer coisa, é só pedir para Clara. Não precisa ficar com vergonha.
Sorri emocionada.
— Está maravilhoso, meu filho. Obrigada… obrigada aos dois.
Clara começou imediatamente a organizar minhas roupas no armário. Ela era daquele tipo de pessoa que parecia nunca parar. Sempre delicada, sempre sorrindo, sempre tentando agradar a todos. Ainda assim, notei algo estranho. Toda vez que Julian entrava no cômodo, o sorriso dela mudava discretamente. Tornava-se mais rígido, mais cauteloso, como se ela estivesse constantemente preocupada em não cometer nenhum erro.
O primeiro jantar juntos aconteceu em um ambiente aparentemente acolhedor. A mesa estava repleta de pratos que eu adorava: peixe assado, sopa caseira, legumes refogados e torta de maçã.
