— «Esse ganso gordo está deitado na minha cama agora!» — ele rugiu. Mas o próximo passo dela o silenciou… para sempre.

A tempestade de neve nas Montanhas Brancas não diminuiu durante o terceiro dia. A neve açoitou seu rosto como pequenas lâminas, e o uivo do vento abafou até mesmo seus próprios pensamentos. Ilona Moraru, uma menina de 25 anos com cabelos ruivos ardentes, vagou para frente, mal segurando os pés. Cada passo cedeu à dor, cada minuto parecia interminável.

Atrás dela estava o passado, do qual ela tentou escapar. Abaixo, na aldeia de Gimeshbuk, o que a esperava não era o destino, mas um veredicto. Seu padrasto, o eterno bêbado Haralamb Jon, já decidiu tudo: o agiota de sessenta e cinco anos a tomará como esposa e, em troca, perdoará suas dívidas. Ilona escolheu um caminho diferente — no caminho da tempestade de neve. É melhor congelar nas montanhas do que viver vendido por garrafas alheias.

As pernas não obedeciam mais, a respiração tornava-se intermitente e curta. O mundo ao nosso redor gradualmente se desfocou.

— Um pouco mais… para o pavilhão de caça… — ela sussurrou e caiu de joelhos.

Quando a consciência estava quase saindo dela, uma luz fraca brilhou repentinamente à frente do retângulo estreito de — no escuro. Porta.

Ela bateu com todo o seu poder — e caiu no vazio negro.

Acordei com uma voz aguda.

— Quase não resta vida em você, estúpido. — A voz do homem era rude, como se rompesse o uivo do vento. — Para a cama. Rapidamente!

Ilona teve dificuldade em abrir os olhos. Acima dela estava um homem alto, com cabelos grisalhos e olhos frios, da cor do céu de inverno. Ele não parecia humano, mas parte dessas montanhas: igualmente severo, imóvel e forte.

— Onde estou? — ela mal perguntou audivelmente.

— Aquele que aqui se chama Albino das Montanhas. — Ele tirou as luvas e começou a acender a lareira. — Dr. Damian Christea.

Ele falou duramente, quase com raiva, mas agiu com cuidado e confiança. Ele a cobriu com peles pesadas e trouxe-lhe uma bebida quente com um cheiro azedo de ervas.

— Retire a roupa molhada, senão só viverá de manhã.

Ilona queria objetar, mas a linguagem dificilmente obedecia. O corpo estava queimando e congelando ao mesmo tempo. Ela apenas sussurrou:

— Não me toque…

Damian se virou.

— eu não toco. Eu salvo.

Quando ela finalmente conseguiu falar, ele sentou-se perto da lareira e olhou silenciosamente para o fogo. De joelhos estava uma velha cruz e uma faca com uma lâmina danificada e irregular.

— Obrigado, — disse Ilona. — Se não fosse por você…

Ele não respondeu imediatamente. Eu apenas olhei para ela brevemente.

— Este lugar raramente é alcançado vivo.

A noite estava inquieta. Ilona sonhava com as mãos do padrasto, vozes masculinas rudes, gritos e respiração pesada. Ela acordou de uma estranha batida —, a porta rangeu silenciosamente.

Damian ficou na soleira com uma tocha na mão.

— Alguém estava se aproximando da janela.

Ele saiu e a nevasca pareceu se separar na frente dele. Ilona aproximou-se do vidro e viu vestígios na neve. Minúsculo, como o infantil.

Ao amanhecer o vento enfraqueceu. Damian voltou em silêncio, com o rosto cinza devido ao cansaço.

— Você não pode ficar aqui. Aqueles que não morreram de morte natural às vezes retornam a essas montanhas.

Ela não entendeu.

— Você está falando de lobos?

Ele balançou a cabeça lentamente.

— Lobos podem ser mortos. Não há — deles.

O dia passou quase sem palavras. Ilona tentou ser útil — retirado da mesa e preparou uma decocção de ervas. Damian não interferiu, mas continuou ouvindo, como se algo soasse fora das paredes da casa que ela não podia ouvir.

— Por que você mora aqui sozinho? — ela perguntou à noite.

Ele ficou em silêncio por muito tempo.

— Uma vez tratei pessoas. Abaixo, na aldeia. Mas um dia ele não conseguiu salvar uma mulher. Esposa de Forester.

Ele olhou para cima.

— O nome dela era… Ilona.

O frio correu pela pele da menina.

— É apenas uma coincidência… — ela sussurrou.

Damian sorriu ironicamente.

— Não há coincidências nestas montanhas. Moro aqui desde então. Às vezes, uma tempestade traz de volta aqueles que deveriam ter partido há muito tempo.

Ilona sentiu tudo encolher dentro.

— O que você quer dizer?

Ele não atendeu. Ele simplesmente jogou um monte de ervas no fogo e o ar ficou pesado, picante e quase inebriante.

À noite, Ilona acordou de um farfalhar tranquilo — como se alguém estivesse andando descalço no chão. O fogo na lareira quase se apagou. No crepúsculo, ela distinguiu a figura de uma criança — branca como a neve, com olhos vazios e sem pupilas.

— Mãe… — ele sussurrou. — É hora de ir para casa.

Ilona gritou. Damian correu em sua direção e agarrou-a firmemente pelos ombros.

— Não olhe para ele! — ele sibilou. — Isto não é uma criança. Isto é o que traz de volta a nevasca.

A criatura desapareceu, dissolvendo-se na escuridão como fumaça.

— O que foi?!

— Minha culpa, — ele disse surdo. — Aquela mulher morreu no parto. Não consegui salvá-la nem ao bebé. Agora a tempestade me traz as sombras deles. Cada vez que uma mulher com o mesmo nome acaba nas montanhas, eles procuram um substituto.

Ilona percebeu: a nevasca não era o nome dela, mas o mesmo.

— Então… devo morrer em vez dela?

Ele olhou para ela com tanta dor que ela ficou em silêncio.

— Se você ficar aqui mais uma noite — sim.

Ao amanhecer eles começaram a se preparar para a estrada. A neve caiu silenciosa e densamente, como cinzas.

— Desceremos juntos, — disse Damian. — Enquanto houver sol, a tempestade não ousará voltar.

Mas assim que saíram de casa, o céu voltou a escurecer. A neve caiu como uma parede sólida. O vento uivou como se estivesse vivo. Ilona sentiu seus dedos invisíveis agarrá-la e puxá-la para trás.

— Correr! — Damian gritou, empurrando-a para frente.

Ela se virou e viu uma parede branca perto dele.

Três dias depois, os mecanismos de busca encontraram apenas um vestígio de uma garota — com cabelos ruivos, congelada, exausta, mas viva. Não havia mais ninguém nas montanhas.

Quando Ilona recuperou o juízo, foi-lhe dito que uma casa destruída havia sido encontrada no topo, e a inscrição foi esculpida no lintel da porta com uma faca:

«Não toque na mulher com a neve nos olhos — ela voltou da minha tempestade de neve».

Ilona nunca mais subiu as montanhas. Mas todo inverno, quando a neve começou a cair, parecia-lhe que alguém alto, pálido, com olhos da cor do céu frio estava de pé do lado de fora da janela, e silenciosamente sussurrou:

— Na cama, mulher estúpida, senão você congela…

E ela sorriu em lágrimas. Porque ela sabia: às vezes até uma tempestade pode te amar.