Roubaram a história do pedido de casamento no terraço com vista para o rio. Roubaram o jantar de aniversário no restaurante francês em River North onde Carissa chorara escondida atrás do guardanapo de linho porque estava absurdamente feliz e não sabia o que fazer com tamanho sentimento. Roubaram o fim de semana em Saugatuck, Michigan, quando ela e Damen ficaram presos na chuva e acabaram bebendo bourbon em copos de papel dentro de um motel porque todos os hotéis melhores estavam lotados.
Quando Carissa corrigiu um detalhe —
— Era francês, não italiano.

Damen revirou os olhos.
— Isso realmente importa?
— Importava quando aconteceu.
Ele lançou um olhar divertido para Nikki e repetiu numa imitação aguda cruelmente caricata:
— “Importava quando aconteceu.”
Nikki caiu na gargalhada.
Carissa sentiu aquela risada acertá-la logo abaixo do peito.
— Por que você não sobe para trabalhar um pouco? — sugeriu Nikki com um sorriso doce. — Não é essa a sua praia?
Existem mulheres que jogam vinho na cara dos outros.
Carissa sempre admirou esse tipo de mulher.
Ela apenas assentiu, levantou-se e subiu as escadas.
Na metade do caminho até o andar de cima, parou.
Não porque tivesse ouvido palavras específicas.
Mas porque reconheceu a mudança no tom das risadas.
A risada das pessoas muda quando elas se sentem completamente seguras. Fica mais baixa. Mais íntima. Mais macia.
Carissa virou-se lentamente e olhou através das grades da escada.
Damen havia erguido a mão até o rosto de Nikki.
O polegar dele deslizava lentamente pela curva da maçã do rosto de Nikki da mesma forma que, anos antes, tocara o rosto de Carissa nas noites em que ainda a observava como se ela fosse um destino — e não apenas uma conveniência funcional. Nikki inclinou o rosto em direção à mão dele com os olhos semicerrados. Os dois aproximaram os rostos devagar. Os lábios ficaram suspensos a poucos centímetros um do outro.
Eles estavam prestes a se beijar na casa de Carissa, sentados no sofá de Carissa, debaixo da fotografia em preto e branco que Carissa comprara em Nova York no ano em que se tornou sócia do escritório.
Uma tábua da escada rangeu sob o pé dela.
Os dois se afastaram bruscamente.
E então, imediatamente, começou a atuação.
— Não é o que parece — disse Damen rápido demais.
— Estávamos ensaiando — acrescentou Nikki. — A parte do carinho.
Carissa desceu os degraus com uma calma quase calculada e voltou a sentar-se na poltrona.
— Claro — respondeu ela. — Ensaio afetivo.
Damen soltou uma risada exagerada.
— Exatamente.
Carissa entrelaçou as mãos sobre o colo para esconder o tremor dos dedos.
— Bom saber.
Ela não os confrontou naquele instante.

Passara anos demais trabalhando com litígios para desperdiçar um interrogatório antes das testemunhas estarem despreparadas.
Nikki foi embora por volta das sete e meia da noite, passando por Carissa com um nervosismo mal disfarçado de irritação. Damen tomou banho e depois caminhou em direção ao quarto como se o dia tivesse terminado a favor dele.
Carissa ficou parada na porta e bloqueou a passagem.
— Não — disse simplesmente.
Ele piscou, confuso.
— Sai da frente.
— Não.
O espanto genuíno no rosto dele revelou algo importante: ela passara tempo demais facilitando a própria manipulação.
— Eu não vou fazer isso — respondeu ele, irritado.
— Nós definitivamente vamos fazer isso.
Damen suspirou com o cansaço típico de um homem que considera consequências uma inconveniência injusta.
— Carissa, você está levando isso para um lugar completamente insano.
— Então me impede com a verdade.
— Nós contamos a verdade.
— Então diga de forma clara — rebateu ela. — Por que você tocou o rosto da minha irmã daquele jeito?
Ele cruzou os braços.
— Porque estávamos ensaiando.
— E por que vocês dois se afastaram quando perceberam que eu estava olhando?
— Porque você apareceu com cara de promotora criminal.
— Você continua sem negar que existe alguma coisa acontecendo entre vocês.
O maxilar dele endureceu.
— Porque não existe nada acontecendo.
— Olha nos meus olhos e diz que você não está dormindo com a Nikki.
Ele olhou para ela.
Depois desviou o olhar.
Foi suficiente.
A compreensão atingiu Carissa da mesma forma que um médico entrega um diagnóstico terminal: com calma absoluta e sem espaço para interpretação errada.
— Você está — disse ela.
Damen passou a mão pelos cabelos.
— Meu Deus…
— Você está.

— É exatamente por isso que eu não consigo conversar com você! — explodiu ele. — Tudo vira tribunal. Tudo vira acusação.
— O que você preferia? — perguntou ela friamente. — Um bilhete de agradecimento?
Ele deu um passo à frente.
— Sabe qual é o seu verdadeiro problema? Controle. Você não suporta existir um único espaço no mundo onde não esteja no comando. No trabalho, todo mundo obedece você. Em casa, acha que pode administrar meus sentimentos da mesma forma que administra contratos.
