Ele pensou que eu ia ficar calado e deixar a minha irmã brincar…

Carissa sustentou o olhar dele sem recuar.

— Estou perguntando se você está tendo um caso com a minha irmã.

— E eu estou dizendo que essa sua obsessão em me interrogar é exatamente o motivo desse casamento estar morto.

Carissa ficou imóvel.

Ali estava.

Nenhuma negação.
Nenhum arrependimento.
Nem sequer uma tentativa convincente de inocência.

Apenas culpa invertida e vestida como profundidade emocional.

O ambiente pareceu inclinar ao redor dela. Não porque ainda tivesse dúvidas, mas porque ele finalmente atravessara o ponto em que sequer precisava preservar a aparência mínima de decência.

— Você está dizendo que o casamento acabou — falou ela devagar.

— Estou dizendo que, se você não consegue confiar em mim, talvez a gente não devesse continuar casado.

Provavelmente, na cabeça dele, aquilo soava poderoso. Para Carissa, soou como uma criança ameaçando fugir de uma casa que nem lhe pertencia.

Ela saiu da frente da porta.

— Então você não dorme aqui esta noite.

Ele a encarou.

— O quê?

— Você ouviu.

Damen soltou uma risada curta pelo nariz.

— Você não pode me expulsar do meu próprio quarto.

— Observe.

Por um momento, ele pareceu cogitar enfrentá-la fisicamente. Então alguma coisa na expressão dela o fez desistir da ideia. Pegou um travesseiro sobre a cama, murmurou algo sobre ela estar impossível e desceu para o andar de baixo.

Carissa permaneceu sozinha no quarto que os dois haviam pintado juntos num fim de semana de junho. O quarto onde ele prometera que “um dia, quando o momento fosse certo”, eles teriam filhos. O mesmo quarto onde ela passara a madrugada acordada após a morte do pai, ouvindo a respiração tranquila de Damen e entendendo que o luto podia ser mais solitário ao lado de alguém dormindo do que completamente sozinha.

Ela sentou-se na beirada da cama.

E não chorou.

Em vez disso, ligou para o escritório, deixou uma mensagem cancelando a reunião das oito e meia da manhã e pegou o casaco e as chaves.

Nikki morava num pequeno apartamento de um quarto em Lakeview.

Apartamento pago por Carissa.

O trajeto levou vinte e dois minutos e consumiu o restante da contenção emocional que ainda existia dentro dela.

Subiu as escadas rápido o suficiente para acordar metade do prédio e bateu na porta com tanta força que os números de latão vibraram.

Nenhuma resposta.

Carissa bateu novamente.

— Nikki. Abre a porta.

— Está tarde — respondeu a voz dela do outro lado. — Podemos conversar amanhã?

— Não.

Silêncio.

Depois:

— Você está me assustando.

A frase quase fez Carissa rir.

— Ou você abre agora ou eu continuo batendo até os vizinhos chamarem a polícia.

A fechadura girou.

Nikki abriu apenas alguns centímetros da porta e tentou organizar no rosto aquela expressão ferida e inocente que sempre funcionara tão bem.

Carissa empurrou a porta e entrou.

O apartamento tinha cheiro de spray de baunilha, comida delivery e dinheiro ganho por Carissa.

— Há quanto tempo? — perguntou ela.

Nikki cruzou os braços imediatamente.

— Há quanto tempo o quê?

— Há quanto tempo você está dormindo com o Damen?

Nikki negou rápido demais.

— Eu não estou dormindo com ele.

— Qual é o formato da marca de nascença no quadril esquerdo dele?

Os lábios de Nikki se separaram.

Por menos de um segundo, a resposta apareceu em seus olhos antes que ela conseguisse escondê-la.

Uma lua crescente.

Era isso.

Carissa conhecia aquela marca havia dez anos.

E Nikki também.

O ambiente pareceu perder o ar.

Toda a suavidade que ainda restava dentro de Carissa endureceu de forma limpa e definitiva.

— Certo — disse ela.

— Carissa, espera—

— Não.

Nikki tentou segurar o braço dela. Carissa recuou imediatamente.

— Não é o que você está pensando.

— É exatamente o que estou pensando.

Os olhos de Nikki se encheram de lágrimas no mesmo instante, como sempre acontecia quando precisava sobreviver às consequências de algo.

— Ele disse que vocês já estavam praticamente separados.

— Que conveniente.

— Ele disse que você só trabalhava, que estava sempre cansada, que fazia ele se sentir pequeno.

Carissa encarou a irmã mais nova e sentiu um cansaço mais antigo do que as duas.

— E isso fez você achar razoável dormir com o marido da sua irmã?

O rosto de Nikki se contorceu.

— Por que você sempre fala assim? Como se eu fosse a vilã de algum filme? Você nunca entendeu como é ser eu.

Então Carissa riu.

Não alto.
Não com amargura.
Apenas uma vez.

Porque a frase era tão absurdamente ofensiva que quase deformava o ar ao redor.

— Não — respondeu ela. — Você tem razão. Eu nunca soube como é ser a pessoa que o mundo inteiro vive resgatando enquanto ela finge estar se afogando.

— Não faz isso.

— Fazer o quê? Dar nome às coisas?

As lágrimas escorriam pelo rosto de Nikki agora, mas Carissa finalmente enxergava algo por trás delas que raramente permitira a si mesma admitir.