Concordei em jantar com um homem de cinquenta anos e, no início, tudo parecia correr quase na perfeição. Mas assim que ele começou a gabar-se de que era capaz de «três vezes por noite», toda a noite perdeu instantaneamente o seu encanto.

Desde o primeiro instante senti que havia algo fora do lugar. Muito antes de ele começar a falar sobre as suas famosas “três vezes por noite”.

No começo, porém, tudo parecia perfeitamente normal. Talvez até perfeito demais.

O tempo e os calendários

Eu tinha quarenta e nove anos. Ele, cinquenta. Conhecemo-nos através de amigos em comum — uma história comum, sem faíscas cinematográficas nem encontros de novela. Naquele dia eu vestia um casaco comprido e o meu velho cachecol de sempre, aquele que já deveria ter ido para o lixo há anos, mas do qual nunca consigo me desfazer. Ele apareceu com uma jaqueta impecável e um perfume amadeirado elegante, discreto e sofisticado, daqueles que não invadem o ambiente. Quase imediatamente começou a contar a própria história.

— Sabes, antigamente eu era completamente diferente — disse ele, inclinando-se ligeiramente na minha direção.

Naquele exato momento pensei: “Lá vem…”

Mas limitei-me a sorrir.

Os primeiros encontros foram tranquilos. Café, caminhadas demoradas, conversas leves. Ele não pressionava, não invadia o meu espaço, não tentava criar intimidade antes da hora. À primeira vista, tudo caminhava muito bem.

Havia apenas um detalhe.

Ele nunca deixava o passado em paz.

— Antes eu conseguia passar a noite inteira sem dormir — dizia enquanto mexia o açúcar na chávena. — Depois trabalhava o dia todo e ainda encontrava disposição para ir ver uma mulher. Eu tinha energia de sobra.

Eu ouvia, fazia um gesto de compreensão e, a cada frase, ficava mais convencida de que aquelas palavras eram dirigidas muito mais a ele próprio do que a mim.

— Hoje, claro, as coisas mudaram — acrescentava. — Mas agora tudo é mais intenso, mais verdadeiro. Hoje sinto as emoções de uma forma diferente.

Esse eterno “mas agora…” aparecia tantas vezes que comecei a notar mais a expressão do que o significado.

Autodesenvolvimento e discursos motivacionais

Nunca procurei um homem perfeito. De verdade.

Não precisava de heróis, de campeões nem de recordes impressionantes. Só queria alguém real ao meu lado, alguém que não transformasse qualquer conversa numa sequência interminável de “naquela época eu…”.

Mesmo assim, havia algo nele que despertava a minha curiosidade.

Por isso resolvi não tirar conclusões precipitadas.

Na sexta-feira foi ele quem telefonou.

— Vem jantar à minha casa — convidou. — Vou preparar uma refeição especial. Vamos passar uma noite de adultos.

Sorri, divertida.

Noite de adultos… E isso queria dizer exatamente o quê?

Ainda assim, aceitei o convite.

A casa dele era acolhedora. Não apenas porque estava quente, mas porque transmitia uma sensação genuína de conforto. A iluminação amarelada deixava tudo mais suave, as cortinas grossas abafavam o barulho da rua e uma velha mesa de madeira ocupava o centro da sala. Da cozinha vinha o aroma irresistível de queijo gratinado, tomate e ervas aromáticas. Ele tinha preparado uma lasanha.

— Esforcei-me bastante — disse, com um sorriso tímido.

Curiosamente, naquele instante gostei mais dele do que durante todas as histórias que costumava contar sobre si mesmo.

Sentámo-nos à mesa. Vinho, comida saborosa, conversa agradável.

Tudo seguia naturalmente…

Até que, mais uma vez, ele voltou ao seu assunto preferido.

— Vou ser completamente sincero contigo — disse, recostando-se na cadeira. — Houve uma época em que eu conseguia surpreender qualquer mulher.

Quase deixei escapar uma gargalhada, mas consegui conter-me.

— Espero que no bom sentido — respondi.

— Claro, no melhor sentido possível — acrescentou rapidamente.

— Fico mais tranquila assim.

Ele sorriu, mas havia algo de forçado naquele sorriso.

— É evidente que a idade já pesa um pouco. Mas aprendi a compensar. Entendes? Hoje não se trata de quantidade. O importante é a qualidade.

Foi exatamente nesse momento que senti um desconforto difícil de explicar.

Não por causa das palavras em si.

Mas pela forma como ele as pronunciou.

Parecia que estava a justificar-se antes mesmo de qualquer coisa acontecer. Como se existisse entre nós uma prova invisível que ele acreditava ser obrigado a passar.

Depois do jantar colocou um disco de vinil para tocar. Era uma música antiga, com aquele som ligeiramente rouco típico das gravações de outras décadas.

Ficámos junto à janela.

Ele passou o braço pelos meus ombros.

— Gosto muito de ti — disse em voz baixa.

E, pela primeira vez naquela noite, tudo pareceu absolutamente sincero.

Por um breve instante, pensei que talvez tivesse interpretado tudo da maneira errada.

Mas aquela sensação durou muito pouco.

Porque, dali em diante, tudo voltou a parecer uma espécie de teste.

Cada gesto era calculado. Cada toque parecia trazer uma pergunta silenciosa escondida: “E então? Está bom o suficiente?”

Nem era pelo fato de tudo ter acontecido de forma… tranquila.

O problema era outro.