Não existia a centelha de que ele falara tantas vezes.
Não foi desagradável. Muito pelo contrário.
Mas também não havia nada que correspondesse às expectativas criadas pelas próprias histórias dele.
Tantas promessas…
E, no fim, uma realidade absolutamente comum.
Em determinado momento percebi algo curioso: eu praticamente não conseguia sentir a presença dele.
Sentia apenas o esforço que fazia para corresponder a uma imagem que tinha criado de si mesmo.
Era uma sensação estranha.
Ele estava ali, ao meu lado, mas parecia observar cada movimento como se fosse um espectador da própria atuação.
Depois levantou-se, vestiu o roupão e foi até à cozinha.
Fiquei deitada, olhando para o teto, enquanto escutava o leve tilintar das taças.
Pouco depois voltou com duas taças de vinho nas mãos.
— Então… — perguntou, sentando-se novamente ao meu lado. — Não te desiludi, pois não?
Foi exatamente essa pergunta que acabou por desfazer tudo.
Não porque a noite tivesse sido ruim.
Mas porque ele ainda continuava preso ao mesmo exame invisível que parecia aplicar a si próprio.
— Está tudo bem — respondi calmamente.
Ele fez um pequeno gesto com a cabeça.
Mesmo assim, era evidente que não acreditava nas minhas palavras.
— Antigamente, claro… — começou outra vez.
— Igor… — interrompi-o com delicadeza.
Ele calou-se imediatamente.
— Podemos deixar o «antigamente» de lado? Só desta vez?
Olhou para mim confuso, quase sem entender.
— Como assim?
— Quero dizer exatamente isso. O presente também existe, sabes?
Durante alguns segundos não respondeu.
Limitou-se a acenar lentamente.
E foi naquele instante que compreendi, sem qualquer dúvida, que estávamos a viver realidades completamente diferentes.
Ele deitou-se ao meu lado, virou-se para o outro lado da cama e adormeceu cerca de dez minutos depois.
Exatamente dez minutos.
Nem sequer me abraçou.
Continuei acordada, ouvindo a respiração tranquila dele.
E percebi que não estava triste porque a noite tinha corrido mal.
O que realmente me inquietava era outra coisa.
Como alguém consegue permanecer tão preso ao passado que o presente acaba transformado apenas num cenário, num palco onde tenta repetir histórias antigas?
Na manhã seguinte acordou cheio de energia.
Preparou café, aproximou-se e beijou-me de leve na testa.
— Há muito tempo que eu não dormia tão bem — comentou com um sorriso satisfeito.
Sorri de volta.
— Repetimos a experiência? — perguntou, piscando um olho.
E foi precisamente nesse momento que tive absoluta certeza da minha resposta.
Eu não queria.
Não porque ele fosse uma má pessoa.
Longe disso.
Mas, ao lado dele, eu nunca me senti uma mulher vivendo um momento verdadeiro.
Sentia-me apenas alguém sentado na plateia.
Como se estivesse a assistir à apresentação de um personagem que fazia de tudo para convencer o público de que um dia tinha sido extraordinário.
— Vamos ver… — respondi apenas.
Ele sorriu e fez um gesto afirmativo, convencido de que tinha entendido.
Mas, no fundo, acredito que não compreendeu absolutamente nada.
Depois daquela noite ainda me enviou algumas mensagens.
Sempre educadas.
Sempre discretas.
Eu respondia com a mesma cordialidade.
Mas nunca mais marcámos outro encontro.
E sabes qual é a parte mais curiosa de toda esta história?
Até hoje não consigo apontar um único motivo concreto para termos seguido caminhos diferentes.
À primeira vista, tudo parecia correto.
Não houve discussões.
Não houve ofensas.
Não houve grandes decepções.
E, ainda assim, faltava o essencial.
Faltava vida.
Era como se, diante de mim, não estivesse um homem real, mas uma versão construída pelas próprias lembranças, alguém que vivia constantemente à sombra das histórias que contava sobre si mesmo.
Talvez essa tenha sido, desde o início, a verdadeira razão.
Eu não procurava um herói preso às glórias do passado.
Queria apenas um homem presente.
Alguém capaz de viver o agora.
Mas ele ainda estava ocupado demais tentando provar que, um dia, tinha sido uma lenda.
