Como castigo, o rei entregou a princesa de formas voluptuosas a um escravo — mas este conseguiu amá-la como ninguém antes o tinha feito

Mas aquelas palavras já não tinham o poder de antes. A culpa que durante tantos anos lhe esmagara o coração começava finalmente a desaparecer.

Numa tarde amena de primavera, enquanto trabalhavam lado a lado no jardim, uma pétala pousou suavemente nos cabelos de Isabella. Elias retirou-a com extremo cuidado e afastou imediatamente a mão.

— Perdoe-me… Não tive intenção…

Antes que ele pudesse recuar mais um passo, Isabella estendeu lentamente a mão e segurou a dele.

— Não tens de pedir desculpa — disse Isabella num tom sereno, quase num sussurro. — Ninguém alguma vez me tratou com tanta delicadeza e respeito.

Os seus olhares encontraram-se por longos instantes. Já não existia medo entre eles, nem vergonha, nem a humilhação que durante tanto tempo lhes pesara sobre os ombros. Apenas uma confiança silenciosa que dispensava qualquer palavra.

Na manhã seguinte, Isabella levou para o jardim um cesto com fruta fresca. Sentaram-se lado a lado entre as flores, partilharam a refeição, conversaram demoradamente e riram com uma leveza que ambos julgavam ter perdido para sempre. Pela primeira vez, pareciam apenas duas pessoas que, depois de tantas provações, tinham finalmente encontrado alguém capaz de compreender a sua alma.

Mas, do alto de uma das janelas do palácio, uma criada observava cada movimento em absoluto silêncio. O que viu bastou para compreender toda a verdade: a filha do rei tinha acabado por se apaixonar precisamente pelo homem que lhe fora imposto como a mais cruel das punições.

Quando a notícia chegou aos ouvidos do rei, a sua fúria explodiu sem qualquer controlo.

— Basta! — rugiu, fazendo ecoar a voz pelos corredores do castelo. — Separem-nos imediatamente! Trancai a rapariga nos seus aposentos, fechem o jardim e levem esse escravo para bem longe dela!

As ordens foram cumpridas sem demora.

Isabella foi encerrada sozinha num quarto frio e silencioso. Chorava baixinho, longe de todos os olhares. No entanto, por trás das lágrimas crescia algo que nunca antes existira dentro dela: uma força nova. Pela primeira vez na vida possuía um sentimento tão verdadeiro que valia a pena enfrentar qualquer sofrimento para o proteger.

Elias voltou a ser acorrentado e lançado numa cela escura, húmida e sem qualquer sinal de esperança. O peso do ferro preso aos pulsos causava-lhe dor, mas nenhuma corrente conseguia feri-lo tanto como a certeza de estar separado da mulher que aprendera a amar.

Analgésicos

Ao sétimo dia de separação, Isabella conseguiu escrever uma pequena carta.

«Penso em ti a cada instante. Se ainda consegues ouvir a minha voz dentro do teu coração, lembra-te disto: o meu amor continua contigo, aconteça o que acontecer. Não desistas. Ainda acredito em nós.»

Uma das criadas, tocada pela tristeza da princesa, decidiu arriscar tudo para ajudá-la. Escondeu cuidadosamente a mensagem dentro do pedaço de pão destinado a Elias.

Quando ele encontrou o bilhete e leu cada palavra, o corpo começou a tremer. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto sem que conseguisse detê-las. Mas não eram lágrimas de derrota ou desespero. Eram lágrimas de esperança, coragem e da certeza de que Isabella continuava a lutar por eles.

Naquela mesma noite, sentado na escuridão da cela, Elias tomou finalmente uma decisão. Pela primeira vez desde que fora capturado, começou a planear cuidadosamente uma fuga.

Entretanto, o rei preparava um novo golpe. Convencido de que precisava de acabar definitivamente com aquela história, decidiu casar Isabella com um poderoso duque já bastante idoso. A união serviria para restaurar a honra da coroa e apagar qualquer vestígio da ligação entre a princesa e o antigo escravo.

Roupa Masculina

Quando Isabella soube da decisão do pai, não gritou nem protestou. Caminhou lentamente até ao espelho, observou o próprio reflexo durante alguns segundos e murmurou quase sem voz:

— Então… chegou finalmente o momento.

Nessa noite, enquanto os nobres enchiam o grande salão com música, brindes e banquetes luxuosos, Isabella vestiu discretamente as roupas simples de uma criada. Aproveitando a distração da corte, atravessou as cozinhas do palácio e desceu até às antigas masmorras, onde encontrou Elias preso atrás das grades.

Ao vê-la surgir na penumbra, ele mal conseguiu acreditar.

— Vieste… mesmo? — perguntou num sussurro emocionado.

Sem hesitar, Isabella correu para junto dele.

— Querem obrigar-me a casar com um velho duque — disse, tentando recuperar o fôlego. — Mas desta vez não vou permitir que decidam a minha vida.

Elias ergueu lentamente a mão e acariciou-lhe o rosto com uma ternura infinita.

— Tu não pertences a ninguém, Isabella. Pertences apenas a ti própria. E, se o teu destino for fugir deste lugar… eu partirei contigo, aconteça o que acontecer.

Com a ajuda da criada que sempre lhes permanecera fiel, conseguiram abrir uma antiga passagem secreta escondida sob o castelo. Os velhos túneis conduziram-nos até ao jardim abandonado, onde a luz prateada da lua iluminava cada passo do caminho. Pela primeira vez caminhavam lado a lado sem esconder os sentimentos que os uniam.