Vestidos
Mas a liberdade revelou-se mais frágil do que imaginavam.
Pouco depois de deixarem os jardins, alguns guardas avistaram-nos ao longe. Em poucos instantes, os sinos do castelo começaram a tocar, anunciando a fuga.
O rei perdeu completamente o controlo.
— Tragam a minha filha de volta imediatamente! — gritou, consumido pela ira. — E matem esse escravo sem piedade!
Sem outra escolha, Isabella e Elias correram através de campos intermináveis, atravessaram florestas densas e desceram ravinas perigosas. Apesar do medo constante, por vezes riam durante a fuga. Não porque tudo estivesse bem, mas porque, pela primeira vez nas suas vidas, sabiam o verdadeiro significado da liberdade.
— Se o destino nos reservar a morte… que seja lado a lado — murmurou Isabella enquanto continuavam a correr.
Elias abanou a cabeça com firmeza.
— Não. Nós não fomos feitos para morrer agora. Vamos sobreviver. E construiremos uma vida onde ninguém volte a decidir por nós.
Quando o sol começou finalmente a nascer, ainda se ouviam ao longe os cascos dos cavalos enviados pelo rei. Mas, nessa altura, os dois fugitivos já tinham conseguido ganhar uma grande vantagem.
Dormiam ao relento, protegidos apenas pelos ramos das árvores. Alimentavam-se de bagas silvestres, raízes e tudo o que a natureza lhes oferecia. Saciavam a sede nas águas cristalinas dos rios e riachos.
Quando os pés de Isabella ficaram cobertos de sangue pelas longas caminhadas, Elias tomou-a nos braços e continuou o percurso sem uma única queixa.
Ela, que crescera rodeada de veludo, ouro e salões luxuosos, agora lavava o rosto em águas geladas e adormecia sobre a terra húmida. E, curiosamente, nunca se sentira tão viva.
— Sou livre… — confessou certa tarde com um sorriso tranquilo. — E, pela primeira vez em toda a minha vida, sinto-me verdadeiramente bonita.
No quarto dia da viagem, chegaram a uma pequena aldeia em busca de descanso. Contudo, um camponês reparou no antigo símbolo da família real que Isabella ainda trazia pendurado ao pescoço. Seduzido pela promessa de algumas moedas, decidiu denunciar imediatamente o paradeiro dos dois fugitivos.
Ao amanhecer, o descanso terminou abruptamente. Antes mesmo de conseguirem deixar a aldeia, foram cercados por um destacamento de soldados enviados pelo rei.
— Em nome da Sua Majestade, rendam-se imediatamente! — gritou o comandante, mantendo a espada erguida.
Sem hesitar, Elias deu um passo em frente e colocou-se diante de Isabella, protegendo-a com o próprio corpo, apesar de não possuir qualquer arma.
— Se querem levá-la, terão primeiro de passar por cima de mim.
Alguns soldados trocaram sorrisos de escárnio. Um homem desarmado parecia não representar qualquer ameaça.
Contudo, antes que alguém avançasse, Isabella ergueu a voz.
— Esperem!
O tom firme surpreendeu todos os presentes.
— Sou filha do rei e exijo que me escutem antes de tomarem qualquer decisão.
A autoridade e a determinação que transpareciam nas suas palavras fizeram com que até os soldados mais experientes permanecessem imóveis por alguns instantes.
— Não estou aqui porque fui forçada ou mantida contra a minha vontade. Permaneci ao lado deste homem porque essa foi a minha escolha. Sou uma mulher livre, e ninguém tem o direito de decidir o meu destino em meu lugar.
O comandante ficou dividido entre cumprir as ordens recebidas e respeitar a princesa. Depois de alguns momentos de silêncio, decidiu agir com prudência.
Mandou prender Elias, mas proibiu que qualquer soldado lhe causasse dano. Isabella foi conduzida de volta ao palácio sob forte escolta.
Família
Uma semana mais tarde, o reino inteiro foi convocado para uma nova cerimónia.
Consumido pelo orgulho ferido, o rei pretendia restaurar publicamente a sua autoridade. Diante de toda a corte anunciaria o noivado de Isabella com o velho duque e, logo depois, ordenaria a execução de Elias perante os olhos de todos.
Mas Isabella também tinha preparado aquilo que iria dizer.
Quando as enormes portas do salão se abriram, ela entrou sem baixar a cabeça. Já não caminhava como uma prisioneira derrotada, mas como alguém que finalmente encontrara a coragem para defender a própria verdade. Vestia um traje simples, os cabelos caíam livremente sobre os ombros e, no seu rosto, não existia qualquer vestígio de medo.
Ao seu lado seguia Elias, ainda preso por correntes, mas mantendo a cabeça erguida com uma dignidade que nenhuma prisão conseguira destruir.
O rei levantou-se para iniciar o discurso.
Antes que pudesse pronunciar a primeira palavra, Isabella deu um passo em frente.
— Antes de falares, pai… peço que me permitas dirigir algumas palavras ao povo.
Todo o salão mergulhou num silêncio absoluto.
— Fui entregue a este homem como se fosse um castigo. Fui humilhada, rejeitada e escondida do mundo, como se a minha existência fosse motivo de vergonha. No entanto, foi precisamente nesse lugar esquecido, onde quase não existia luz nem esperança, que encontrei algo que jamais conheci dentro destas paredes. Encontrei amor. Um amor verdadeiro, puro e sincero.
