Scarlett era tudo o que Katherine já não era aos olhos dele: jovem, loira, extremamente magra, vestindo um vestido absurdamente caro e provocante. Uma mulher moldada para aparecer ao lado de empresários ricos em revistas de celebridades.
Katherine respirou lentamente, usando as técnicas aprendidas nas aulas de yoga para gestantes que frequentava sozinha enquanto Brandon supostamente participava de reuniões.
Observou a imagem com mais atenção.
Ao fundo, vários executivos da Sterling Industries brindavam em clima de comemoração. A “fusão empresarial” aparentemente exigia champanhe, música eletrônica e modelos.
O garçom retornou discretamente.
— Deseja mais alguma coisa, madame?

— Apenas a conta, por favor.
Sua voz permaneceu firme apesar do caos emocional crescendo dentro dela.
Enquanto assinava o recibo do cartão de crédito — o cartão de Brandon, que em breve deixaria de existir em sua carteira se dependesse dela — Katherine decidiu mentalmente ligar para sua advogada na manhã seguinte.
Não para o advogado da família.
Nem para o especialista que administrava os bens do casal.
Mas para a sua própria advogada.
Uma profissional cuja existência Brandon desconhecia. Assim como desconhecia muitas outras coisas.
Henri apareceu trazendo seu casaco de cashmere, um presente de Natal dado por Brandon cinco anos antes, na época em que ele ainda se preocupava em escolher presentes sem delegar tudo para a assistente.
— Senhora Sterling… — disse Henri em voz baixa enquanto a ajudava com o casaco. — Se me permite dizer… a senhora merece algo muito melhor.
Katherine o encarou por alguns segundos, surpresa pela sinceridade.
Henri tinha uma filha da mesma idade dela. Ela lembrava vagamente disso.
— Obrigada, Henri — respondeu calmamente. — Acho que estou começando a acreditar nisso também.
Do lado de fora, a chuva castigava Manhattan enquanto o motorista abria o guarda-chuva sobre sua cabeça. Ao entrar no carro, Katherine Sterling tomou outra decisão silenciosa.
Na manhã seguinte, ligaria para Patricia Morrison.
A melhor advogada de divórcios de Nova York.
Especialista em separações milionárias envolvendo patrimônios ocultos.
Porque enquanto Brandon acreditava estar casado com uma ex-secretária comum que devia agradecer pelo luxo que ele proporcionava, a realidade era muito mais complexa.
A chuva deslizava pelos vidros escuros do carro enquanto o trânsito avançava lentamente pelas avenidas iluminadas da cidade.
Katherine pousou a mão sobre a barriga.
— Agora somos só nós dois, meu amor — sussurrou para o bebê. — Mas não se preocupe… sua mãe vem se preparando para este dia há muito tempo.
Na manhã seguinte, a cafeteira italiana preenchia a cobertura luxuosa de Manhattan com o aroma forte de café recém-passado. O apartamento de quinze milhões de dólares era uma das maiores obsessões de Brandon, que adorava exibi-lo para empresários e investidores.
Sentada na bancada da cozinha, Katherine analisava planilhas detalhadas em seu notebook. Planilhas que Brandon jamais imaginaria que ela fosse capaz de entender.
Na televisão, jornalistas discutiam o crescimento das ações de empresas tecnológicas. Normalmente aquilo lhe interessaria mais, mas naquele momento ela estava ocupada calculando o verdadeiro valor do império escondido que construíra em silêncio durante duas décadas.
Chen Technologies.
Ela utilizara o sobrenome de solteira da mãe para fundar a empresa. Brandon nunca demonstrara qualquer interesse pela família dela além de confirmar que não poderiam ajudar financeiramente no casamento.
Agora, aquela companhia valia mais de 800 milhões de dólares.
Inteligência artificial.
Computação quântica.
Biotecnologia.

Tudo desenvolvido enquanto Brandon acreditava que sua esposa passava os dias em almoços beneficentes e clínicas de estética.
O elevador privativo anunciou a chegada dele com um som elegante e discreto.
Brandon entrou usando o mesmo terno Armani da noite anterior, os cabelos grisalhos levemente bagunçados e impregnados com um perfume feminino que definitivamente não era o dela.
Tom Ford Lost Cherry.
Quinhentos dólares o frasco.
Scarlett tinha gostos caros.
— Katherine — disse ele sem encará-la, servindo café na máquina que custava mais que muitos carros populares. — Precisamos conversar sobre o nosso acordo.
Ela fechou lentamente o notebook e cruzou as mãos sobre a barriga.
O bebê permanecia quieto naquela manhã, como se percebesse a tensão crescente no ambiente.
— Nosso acordo? — perguntou calmamente. — É assim que você chama nosso casamento agora?
O maxilar de Brandon se contraiu. Ele detestava quando ela respondia naquele tom tranquilo e racional que o fazia sentir-se analisado.
— Não comece com drama — respondeu usando sua voz autoritária de CEO, a mesma capaz de fazer executivos saírem chorando de reuniões. — Você sabe exatamente o que quero dizer. Essa situação deixou de funcionar. Um homem na minha posição precisa de um certo tipo de esposa.
