Construção e Reforma
— Acho que estou morrendo… — declarou Grace dramaticamente, largada no sofá.
Sorri e respondi:
— Você só está com um resfriado.
Emily espirrou dentro do cobertor e, imitando a irmã, anunciou:
— Eu também estou morrendo.
Balancei a cabeça, divertida.
— Que tragédia enorme… Agora bebam o suco de vocês.
Quando o relógio marcou o meio-dia, as duas já atravessavam a casa correndo, brincando de esconde-esconde como se a doença tivesse desaparecido por completo.
— Nada de correr dentro de casa! — gritei da cozinha.
Naturalmente, elas aceleraram ainda mais.
— E parem de pular em cima dos móveis!
No mesmo instante, ouvi a voz de Grace ecoando do andar de cima.
Filmes de Terror
— Foi a Emily!
Sem perder tempo, Emily respondeu aos gritos:
— Eu sou a menor! Nem conheço todas as regras!
Enquanto aquecia uma panela de sopa, senti alguém puxando delicadamente a manga da minha blusa.
Era Grace.
Seu semblante estava incomumente sério.
Ela me encarou por alguns segundos e perguntou em voz baixa:
— Você quer conhecer a minha mamãe?

Fiquei completamente imóvel.
Família
— O quê?
Grace confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Você quer vê-la? Ela também adorava brincar de esconde-esconde.
Um frio percorreu todo o meu corpo.
Respirei fundo antes de perguntar, com toda a calma que consegui reunir:
— Grace… o que exatamente você quer dizer com isso?
Ela franziu a testa, como se minha dúvida fosse estranha.
— Quer que eu mostre onde ela mora?
Nesse instante, Emily entrou na cozinha arrastando um coelho de pelúcia pela orelha.
Sem demonstrar qualquer emoção, ela comentou:
— A mamãe está lá embaixo.
Meu coração começou a bater tão forte que por um momento mal consegui ouvir meus próprios pensamentos.
Cozinha e Sala de Jantar
Grace segurou minha mão e começou a caminhar pelo corredor com a naturalidade de uma criança prestes a revelar uma surpresa de aniversário.
Enquanto a seguia, perguntei:
— Lá embaixo… onde exatamente?
Ela respondeu com absoluta tranquilidade:
— No porão. Vem comigo.
Naquele instante, minha mente foi invadida pelas hipóteses mais assustadoras.
A porta que permanecia sempre trancada.
Os olhares estranhos das meninas.
O silêncio de Daniel sempre que o assunto surgia.
A esposa falecida.
E aquele porão que ele jamais havia aberto diante de mim.
Grace parou bem em frente à porta e apontou para a fechadura.
— É só abrir.
Minha boca ficou completamente seca.
Olhei para ela e perguntei:
— O papai leva vocês até lá?
Pessoas e Sociedade
Ela assentiu naturalmente.
— Às vezes… quando sente saudade dela.
Essas palavras fizeram meu estômago se revirar ainda mais.
Segurei a maçaneta e tentei girá-la.
Estava trancada, como sempre.
Grace permaneceu tranquila.
— Não se preocupa. A mamãe está aí dentro.
Hoje sei que o mais sensato teria sido esperar Daniel voltar para casa.
Mas, naquele momento, o medo e a curiosidade falaram mais alto.
Retirei dois grampos do meu cabelo, ajoelhei-me diante da fechadura com as mãos trêmulas e comecei a tentar destrancá-la improvisando como podia.
Ao meu lado, Emily respirava baixinho, observando tudo em silêncio.
Grace permanecia na ponta dos pés, esperando pacientemente que a porta finalmente se abrisse.

Clique.
A fechadura finalmente cedeu.
Direito de Família
Fiquei paralisada.
Grace sussurrou quase sem fazer barulho:
— Está vendo?
Com um aperto no peito, empurrei a porta lentamente.
O porão estava mergulhado em uma penumbra silenciosa. Ainda assim, bastou um único olhar para que meu coração disparasse.
A primeira coisa que senti foi o cheiro.
Um odor úmido, pesado, de mofo e tempo acumulado.
Desci o primeiro degrau.
Depois o segundo.
E, conforme meus olhos se acostumavam à escuridão, o terror que eu havia construído na minha cabeça começou a tomar outra forma.
Ali não havia nenhum corpo.
Nada daquilo que minha imaginação desesperada havia pintado nos últimos minutos.
Construção e Reforma
Era algo completamente diferente.
O porão não parecia esconder um crime.
Parecia preservar uma lembrança.
Quase como um pequeno santuário dedicado a alguém que nunca realmente foi embora.
Havia um sofá antigo coberto por uma manta cuidadosamente dobrada sobre o encosto. As estantes estavam repletas de álbuns de fotografias. Em vários porta-retratos aparecia a esposa de Daniel sorrindo ao lado das meninas. Desenhos infantis decoravam algumas paredes. Caixas identificadas com palavras escritas em marcador preto estavam empilhadas num canto. Sobre uma mesinha baixa repousava um delicado conjunto de chá de brinquedo. Um suéter feminino permanecia pendurado nas costas de uma cadeira, como se alguém tivesse acabado de deixá-lo ali. Encostadas à parede estavam um par de botas de borracha femininas. Ao lado de uma televisão antiga havia uma pilha de DVDs cuidadosamente organizada.
