O ambiente inteiro carregava o cheiro persistente da umidade.
Uma goteira caía ritmadamente de um cano para dentro de um balde, enquanto manchas escuras de infiltração marcavam as paredes.
Eu apenas permanecia ali, incapaz de mover um único músculo.
— É aqui que a mamãe mora — disse Grace com um sorriso tranquilo.
Olhei para ela sem conseguir esconder minha confusão.
Filmes de Terror
— O que você quer dizer com isso, meu amor?
Ela abriu os braços, mostrando todo o ambiente ao redor.
— O papai traz a gente aqui para ficar com ela.
Emily apertou o coelhinho de pelúcia ainda mais contra o peito.
— A gente assiste à mamãe na televisão.
Grace confirmou com a cabeça.
— E o papai conversa com ela.
Voltei a observar cada detalhe daquele lugar.
Naquele momento compreendi que aquilo jamais havia sido apenas um porão.
Era um espaço construído para guardar uma dor que nunca encontrou um jeito de partir.
Portas e Janelas
Não havia crime.
Não havia loucura.
Muito menos o horror que eu tinha imaginado.
Existia apenas um homem incapaz de se despedir da mulher que amou.
E um cômodo inteiro transformado em abrigo para um luto que, com o passar dos anos, acabou ganhando paredes, móveis e uma porta sempre trancada.

Aproximei-me do móvel sob a televisão.
O DVD que estava por cima da pilha tinha uma etiqueta escrita à mão: «Passeio ao zoológico.»
Logo abaixo havia outro: «Aniversário da Grace.»
Sobre a pequena mesa repousava um caderno aberto.
Eu sabia que não deveria lê-lo.
Mesmo assim, meus olhos acabaram encontrando uma única frase.
Gravidez e Maternidade
«Queria tanto que você ainda estivesse aqui.»
Fechei o caderno imediatamente, como se tivesse invadido um espaço que não me pertencia.
Naquele exato instante, ouvi o som da porta principal sendo aberta no andar de cima.
Daniel havia voltado para casa mais cedo do que o esperado.
— Meninas? — sua voz ecoou pela casa.
Os olhos de Grace brilharam.
— Papai! Eu mostrei tudo para a mamãe!
O silêncio que se seguiu pareceu interminável.
Os passos dele pararam por um instante.
Logo depois, vieram rápidos e apressados.
Em poucos segundos Daniel apareceu na entrada do porão.
Assim que percebeu a porta escancarada, toda a cor desapareceu de seu rosto.
Por alguns segundos pesados e sufocantes, ninguém conseguiu dizer absolutamente nada.
Construção e Reforma
Por fim, ele respirou fundo e perguntou, quase sem voz:
— O que você fez?
O tom duro fez Grace encolher os ombros de susto.
Sem pensar duas vezes, coloquei-me imediatamente à frente das meninas.
— Não fale comigo desse jeito.
Ele passou as duas mãos pelos cabelos, completamente desesperado.
— Por que essa porta está aberta?
Olhei diretamente para ele.
— Porque sua filha me disse que a mãe dela mora aqui embaixo.
A expressão em seu rosto mudou na mesma hora.
A irritação desapareceu por completo.
No lugar dela surgiram medo, vergonha e um profundo constrangimento.
Aluguel de Imóveis Residenciais
A voz de Grace saiu baixinha e insegura.
— Eu fiz alguma coisa errada?
Daniel olhou para a filha como se aquilo estivesse despedaçando seu coração.
— Não… claro que não, minha princesa.
Ajoelhei-me diante das duas meninas.
— Subam, coloquem um desenho para assistir. Daqui a pouco eu levo a sopa para vocês.
As duas hesitaram por alguns instantes, olhando de mim para o pai.
Depois obedeceram e subiram as escadas em silêncio.
Assim que desapareceram do corredor, voltei-me para Daniel.
— Agora me explica.
Ele percorreu o porão com os olhos, como se fosse doloroso demais perceber que eu finalmente havia conhecido aquele lugar.
Direito de Família
— Eu queria ter contado tudo para você.
Cruzei os braços.
— Quando?
Ele não respondeu.
Deixei escapar uma risada curta, carregada de nervosismo.
— Foi exatamente o que eu imaginei.
Daniel desceu lentamente alguns degraus, mantendo o olhar fixo no chão.
— Nada disso é o que você está imaginando.
Balancei a cabeça.
— O problema é justamente esse… Eu nem sei mais o que devo pensar.
Sua voz vacilou antes de continuar, revelando um sofrimento que ele já não conseguia esconder.

— É tudo o que ainda me resta dela.
Cozinha e Sala de Jantar
Naquele instante, algo dentro de mim começou a mudar.
Não porque aquilo tivesse passado a parecer normal.
Muito pelo contrário.
Mas porque, pela primeira vez desde que nos conhecíamos, Daniel estava sendo completamente sincero.
Ele se sentou no último degrau da escada e manteve os olhos fixos no chão.
— Depois que ela morreu, todo mundo dizia a mesma coisa: «Seja forte.» E foi exatamente isso que fiz. Continuei trabalhando, preparava o almoço das meninas, resolvia os problemas da casa… Apenas sobrevivia a um dia de cada vez. Todos diziam que eu era um ótimo pai, que estava lidando muito bem com tudo. — Soltou uma risada amarga. — A verdade é que eu simplesmente deixei de sentir qualquer coisa. Continuava respirando por causa das meninas, mas, por dentro, parecia que eu tinha morrido junto com ela.
