Eu achava que estava entrando para uma família que já havia enfrentado a pior tragédia que alguém poderia imaginar. No entanto, uma frase aparentemente insignificante, dita pela filha mais velha do meu namorado Daniel, revelou que nem tudo naquela casa era exatamente como parecia.
Quando comecei a namorar Daniel, ele me contou algo no nosso segundo encontro que quase me fez levantar da mesa e ir embora.
— Tenho duas filhas — disse ele. — Grace tem seis anos, e Emily tem quatro. A mãe delas faleceu há três anos.
Ele falou com serenidade, mas havia uma tensão perceptível em sua voz.
Estendi a mão por cima da mesa.
— Obrigada por me contar isso.
Ele esboçou um sorriso cansado.
— Algumas pessoas ouvem essa história e saem correndo.
— Eu ainda estou aqui.
E, de fato, fiquei.
Era impossível não se apaixonar pelas meninas. Grace era inteligente, curiosa e fazia perguntas sem parar, como se o mundo tivesse a obrigação de lhe dar todas as respostas. Emily era mais reservada. No começo, escondia-se atrás da perna de Daniel sempre que eu me aproximava. Um mês depois, já se acomodava no meu colo com um livro nas mãos, como se eu sempre tivesse feito parte da vida delas.
Namoramos durante um ano antes de nos casarmos.
Organizamos uma pequena cerimônia à beira do lago, apenas com a família. Grace usava uma coroa de flores e perguntava sobre o bolo a cada dez minutos. Emily adormeceu antes mesmo de o sol se pôr. Daniel parecia feliz, mas havia algo de cauteloso em seu comportamento, como se temesse que aquela felicidade não durasse muito.
Depois do casamento, fui morar com ele.
A casa era linda. Tinha uma cozinha espaçosa, uma varanda que parecia se estender por toda parte, brinquedos espalhados pelos cômodos e fotografias de família decorando as paredes.
E havia uma porta trancada que dava acesso ao porão.
Percebi sua existência logo na primeira semana.
— Por que essa porta continua trancada? — perguntei certa noite.
Daniel continuou enxugando os pratos, sem sequer levantar os olhos.
— É só um depósito. Tem um monte de coisas velhas lá embaixo: ferramentas antigas, caixas e todo tipo de tralha. Não quero que as meninas se machuquem por lá.
A explicação parecia razoável. Por isso, não insisti no assunto.
Ainda assim, comecei a reparar em pequenos detalhes.
Às vezes, Grace olhava para aquela porta quando pensava que ninguém estava prestando atenção.
Emily também se aproximava dela de vez em quando, mas logo se afastava apressadamente, como se tivesse mudado de ideia no último instante.
Certa vez, encontrei Grace sentada no corredor, bem diante da maçaneta.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei.
— Nada — respondeu ela, levantando-se rapidamente antes de sair correndo.
Achei aquilo estranho, mas não o suficiente para transformar o episódio em um problema.
Então chegou o dia em que tudo mudou.
As meninas estavam resfriadas, por isso resolvi ficar em casa com elas. Durante algum tempo, ficaram abatidas e reclamaram de tudo, mas logo se recuperaram o suficiente para transformar a casa inteira em um verdadeiro caos barulhento.
— Estou morrendo! — anunciou Grace, estirada no sofá.
— Você está resfriada — respondi.
Emily espirrou dentro do cobertor e declarou:
— Eu também estou morrendo.
— Que tragédia terrível! Bebam um pouco de suco.
Por volta do meio-dia, as duas já corriam pela casa, brincando de esconde-esconde como dois pequenos tornados.
— Nada de correr! — gritei da outra sala.
Elas continuaram correndo.
— E nada de pular dos móveis!
— Foi a Emily! — gritou Grace lá de cima.
— Eu sou pequena! Não conheço as regras! — respondeu Emily, tentando se defender.
Eu estava justamente esquentando a sopa quando Grace se aproximou de mim e puxou a manga da minha blusa.
Ela parecia estranhamente séria.
— Você gostaria de conhecer a minha mãe?
Fiquei paralisada.
— O quê?
Ela confirmou com a cabeça.
— Você quer ver onde ela mora?
Meu coração começou a bater descontroladamente.
Emily se aproximou da irmã, segurando seu coelho de pelúcia pela orelha.
— A mamãe está lá embaixo.
Naquele instante, senti um arrepio gelado percorrer todo o meu corpo.
— Grace… o que você quer dizer com isso?
— Venha comigo. Eu vou te mostrar.
Ela segurou minha mão e me puxou pelo corredor, como se estivesse prestes a me revelar uma surpresa de aniversário.
— Lá embaixo onde? — perguntei, tentando manter a calma.
— No porão.
Os piores cenários começaram a passar pela minha cabeça.
A porta trancada. Os segredos. As meninas sendo cuidadas por alguém. A esposa falecida. Aquele porão que Daniel nunca havia aberto na minha frente.
Paramos diante da porta.
Grace olhou para mim e disse:
— É só abrir.
Eu deveria ter esperado. Hoje, sei disso.
— O papai leva você até lá? — perguntei.
Ela assentiu.
— De vez em quando. Quando sente saudades dela.
