Aquela resposta não me tranquilizou nem um pouco.
Experimentei a maçaneta. Estava trancada.
— Está tudo bem — disse Grace. — A mamãe está lá.
Em vez de procurar Daniel, tirei dois grampos do cabelo e me ajoelhei diante da fechadura, com as mãos trêmulas.
Ouvi um clique.
A fechadura cedeu.
Fiquei imóvel por alguns segundos.
— Está vendo? — sussurrou Grace.
Abri a porta.
O porão estava escuro, mas consegui enxergar o suficiente.
O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu. Umidade. Mofo. Ar parado.
Desci alguns degraus, lentamente.
E foi então que o meu medo começou a se transformar em outra coisa.
Não havia nenhum cenário de horror.
Nenhum corpo.
Havia… lembranças.
Um sofá velho coberto por uma manta. Prateleiras repletas de álbuns de fotografias. Imagens da esposa de Daniel espalhadas por todos os cantos. Desenhos infantis. Caixas identificadas com etiquetas escritas à mão. Um pequeno jogo de chá. Um suéter jogado sobre uma cadeira. Botas femininas encostadas na parede. Uma televisão ao lado de várias pilhas de DVDs.
O cheiro vinha do mofo. A água pingava continuamente dentro de um balde, por causa de um cano rachado.
Fiquei ali, imóvel, sem saber o que dizer.
— É aqui que a mamãe mora — disse Grace, sorrindo.
— O que você quer dizer com isso, querida? — perguntei com delicadeza.
— O papai nos traz aqui para ficarmos com ela.
Emily apertou o coelho de pelúcia contra o peito.
— Nós assistimos à mamãe na televisão.
— E o papai também conversa com ela — acrescentou Grace.
Olhei ao redor, tentando compreender o que estava vendo.
A dor de Daniel tinha um quarto trancado.
Aquilo não era um crime.
Era algo muito mais triste.
Naquele momento, ouvi a porta se abrir lá em cima.
Daniel havia chegado mais cedo do que o esperado.
— Meninas? — chamou ele.
Grace gritou, toda animada:
— Papai! Eu mostrei a mamãe para ela!
Os passos dele pelo corredor ficaram pesados.
Em seguida, aceleraram.
Daniel apareceu à porta do porão… e perdeu completamente a cor do rosto.
— O que você fez? — perguntou ele.
O tom de sua voz assustou Grace.
Coloquei-me na frente das meninas e encarei Daniel.
— Não fale comigo nesse tom.
Ele levou as mãos à cabeça, visivelmente abalado.
— Por que essa porta está aberta?
— Porque sua filha acabou de me dizer que a mãe dela mora aqui embaixo.
Sua expressão mudou imediatamente. A raiva desapareceu do seu rosto.
Grace começou a tremer.
— Eu fiz alguma coisa errada? — perguntou, assustada.
— Não, meu amor — respondeu Daniel baixinho.
Pedi às meninas que subissem.
— Vão assistir aos desenhos animados. Daqui a pouco, levo a sopa para vocês.
Assim que elas saíram, virei-me para ele.
— Agora, vamos conversar.
Daniel olhou ao redor, como se não suportasse encarar tudo aquilo na minha presença.
— Eu queria ter contado a você — disse ele.
— Quando?
Ele ficou em silêncio.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Pois é. Imaginei.
— Não é o que parece — insistiu ele.
— Eu nem sequer sei o que estou vendo.
Sua voz falhou.
— É tudo o que me restou dela.
Aquelas palavras fizeram minha raiva diminuir um pouco.
— Depois que ela morreu, todo mundo me dizia que eu precisava ser forte. Então, eu fui. Continuei trabalhando, cuidando das meninas e fazendo tudo o que precisava ser feito… mas, por dentro, eu estava completamente vazio.
Permaneci calada, deixando que ele continuasse.
— Eu não queria me desfazer das coisas dela. E, quando as meninas perguntavam sobre a mãe, eu as trazia aqui. Nós olhávamos os álbuns de fotografias e assistíamos aos vídeos.
Olhei para ele, tentando entender a dimensão daquela situação.
— Você sabe que Grace acredita que a mãe dela mora aqui, não sabe?
Daniel fechou os olhos.
— Sei.
— Isso não é pouca coisa.
Voltei a olhar ao redor. O suéter cuidadosamente guardado, os sapatos, os brinquedos e todos aqueles objetos que pareciam ter ficado presos no tempo.
— Por que você deixou tudo exatamente assim? — perguntei.
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Porque, aqui embaixo, ela ainda fazia parte da nossa casa.
Aquelas palavras permaneceram entre nós por um longo tempo, pesadas demais para serem ignoradas.
Então, fiz a pergunta que estava me sufocando por dentro:
— Por que você se casou comigo se ainda estava vivendo assim?
Daniel ficou rígido.
— Porque eu amo você.
— Ama mesmo?
Sua expressão mudou, e o rosto perdeu a firmeza que ele tentava manter.
— Você me ama de verdade… ou simplesmente queria alguém que ajudasse a carregar os pedaços da vida que sobraram depois que ela se foi?
Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo.
— As duas coisas — admitiu finalmente.
A sinceridade da resposta doeu mais do que eu esperava.
— Você me pediu para construir uma vida ao seu lado enquanto escondia de mim um quarto trancado, cheio de tristeza.
