Taylor desviou o olhar para a cozinha recém-transformada.
— Também conversei com uma nutricionista e com um treinador especializado em reabilitação cardíaca. Ambos foram recomendados pela Dra. Lee.
Ela piscou algumas vezes.
— Você fez o quê?
— Eles só começam se você concordar. E se não gostar de qualquer um deles, procuramos outras opções.
Maya ainda tentava processar.
— Você realmente organizou tudo isso?
— Limpei minha agenda das manhãs pelos próximos trinta dias. E, se necessário, posso reorganizar mais compromissos.
— Um mês inteiro?
— Sim.
— Taylor…
Ela parecia genuinamente chocada.
— Você cancelou um mês da sua rotina?
— Sou dono da empresa.
— Não é assim que funciona.
Ele deu de ombros.
— Funciona quando todos têm medo de me decepcionar.
Maya balançou a cabeça.
— Isso é temporário. Você está apenas reagindo emocionalmente.
— Talvez.
Ele sustentou seu olhar.
— Mas vou fazer isso mesmo assim.
A primeira semana em casa foi humilhante.
Não porque Taylor fosse cruel.
Pelo contrário.
Crueldade teria sido mais fácil de combater.
A humilhação vinha da lentidão.
Da dependência.
Da sensação constante de precisar de ajuda em coisas que ela sempre acreditou conseguir fazer sozinha.
Caminhar dez minutos e ficar sem fôlego.
Precisar descansar após tarefas simples.
Sentar-se à ilha da cozinha enquanto Elena, a nutricionista de olhos gentis e honestidade implacável, fazia perguntas sobre alimentação, rotina, cansaço, emoções, hábitos de sono e gatilhos comportamentais.
O pior era que Elena não julgava.
Sem julgamento, não existia inimigo para culpar.
Apenas realidade.
Taylor participava das consultas apenas quando Maya permitia.
E falava muito menos do que ela imaginava.
Quando fazia perguntas, eram objetivas.
— Como organizar melhor a despensa?
— Quanto sódio é aceitável por dia?
— Qual é uma progressão realista para exercícios?
— Como devemos administrar os horários dos medicamentos?
Elena respondia com a paciência reservada para pessoas inteligentes que corriam o risco de transformar um ser humano em um projeto de eficiência.
No segundo dia, ela olhou diretamente para Taylor e disse:
— Você não está construindo uma máquina.
Ele levantou os olhos do bloco de notas.
— Não?
— Está ajudando uma pessoa cansada a criar escolhas sustentáveis.
Taylor assentiu com a mesma concentração que demonstrava durante negociações bilionárias.
Maya quase revirou os olhos.
Pouco a pouco ela aprendeu novos hábitos.
Medir a pressão arterial enquanto o café passava.
Reconhecer quais alimentos lhe davam energia.
Entender quais provocavam quedas bruscas de disposição.
Perceber que o corpo não reage ao abandono com vingança.
Reage com desconfiança.
Ele não acredita imediatamente quando alguém promete cuidar dele.
Taylor também mudou.
De formas que ela nunca pediu.
E não sabia como impedir.
O uísque noturno desapareceu.
Os jantares tardios foram cancelados.
As refeições sofisticadas preparadas por chefs particulares deixaram de aparecer.
Ele passou a comer exatamente o que ela comia.
Mesmo quando Maya dizia que aquilo era ridículo.
Acordava às cinco e meia da manhã.
Às seis em ponto batia à porta dela.
Sempre carregando duas garrafas de água e um par de tênis.
Na primeira vez, Maya respondeu:
— Vá para o inferno.
Taylor apoiou-se no batente da porta.
— Às seis da manhã, vou interpretar isso como um «bom dia».
Ela pegou a água.
Mesmo assim.
Começaram a caminhar no Central Park.
A ideia fora de Elena.
Segundo ela, pessoas que têm medo do próprio corpo costumam reagir melhor ao ar livre do que a uma esteira.
As manhãs de abril eram úmidas e prateadas.
Corredores surgiam entre a neblina.
Cães puxavam seus donos com entusiasmo.
A cidade ainda não havia despertado completamente.
Maya usava uma calça preta antiga e um moletom gasto que certa vez adormecera vestindo e nunca mais conseguira abandonar porque lhe transmitia segurança.
Taylor aparecia com uma jaqueta esportiva escura e uma competência irritante para praticamente tudo.
Inclusive para fingir que não percebia quando ela precisava parar.
No primeiro dia, isso aconteceu após apenas doze minutos.
Ela curvou-se ligeiramente.
As mãos apoiadas nos quadris.
A respiração irregular.
— Não consigo.
— Consegue.
— Não. Eu literalmente…
— Eu sei o que você quis dizer.
Taylor voltou alguns passos e parou à sua frente.
Bloqueando o caminho.
Obrigando-a a encará-lo.
— Não estou pedindo que caminhe um quilômetro.
— Então?
— Estou pedindo mais trinta passos.
Maya estreitou os olhos.
— Isso é manipulação.
— Não. É especificidade.
— Você sempre faz isso.
— Faço o quê?
— Divide coisas impossíveis em pedaços menores e age como se isso tornasse tudo menos ofensivo.
Taylor refletiu por um instante.
