Ela odiava aquilo.
Nos últimos meses acontecia com frequência crescente.
Era como se seu próprio corpo tivesse se transformado em uma negociação interminável.
E ela estivesse perdendo todas as rodadas.
Tomara os remédios antes de sair.
Comera pouco.
Seguira cada orientação médica.
Fora cuidadosa.
Mas, ultimamente, ser cuidadosa já não bastava.
Ao seu lado, Taylor mantinha uma das mãos apoiada na perna.
Os dedos bateram uma única vez no tecido do smoking antes de pararem.
Mesmo sem falar nada, Maya sentia sua atenção.
Normalmente isso a irritava.
Taylor tinha o hábito de observar tudo.
Analisar tudo.
Tratar o silêncio como um quebra-cabeça que mais cedo ou mais tarde seria resolvido.
Naquela noite, porém, aquilo provocava outra sensação.
Porque o que acontecera no salão não parecera calculado.
Não parecera encenação.
Não parecera estratégia.
Fora simplesmente indignação.
Imediata.
Instintiva.
Real.
Maya havia aceitado casar-se com ele porque acreditava que seis meses de companhia emprestada seriam mais fáceis de suportar do que o futuro que a aguardava.
Essa era a verdade.
Crua.
Nua.
Oito meses antes, um médico sentara-se diante dela em uma sala de consulta com cheiro de antisséptico e papel recém-impresso.
Falara palavras que mudaram tudo.
Hipertensão.
Sobrecarga cardíaca.
Risco.
Intervenção precoce.
Mudança radical de hábitos.
Complicações.
Ela ouvira cada termo em silêncio.
Assentira como uma aluna obediente.
Depois voltara para seu pequeno apartamento no Queens.
Trancara a porta.
Sentara-se no chão da cozinha.
E permanecera ali até que as lágrimas transformassem o desenho do piso em uma mancha indistinta.
Ela tentou.
Tentou de verdade.
Alimentação melhor.
Caminhadas.
Medicamentos.
Consultas.
Controle constante dos indicadores médicos.
Menos espelhos.
Menos autocrítica.
Mais disciplina.
Mas também precisou suportar os conselhos otimistas de pessoas que jamais conheceram o tipo de solidão capaz de transformar qualquer mudança em um esforço sobre-humano.
Então Eric White apareceu.
Conheceram-se por meio de um evento beneficente.
Metade constrangido.
Metade sincero.
Ele explicou toda a história da aposta.
Esperava claramente que ela recusasse.
Mas Maya apenas fez perguntas práticas.
— Ele vai me tratar com respeito?
— Acho que sim.
— Vai ser honesto comigo?
— Eu exigi isso dele.
— Conseguiremos manter tudo em segredo?
Eric suspirou.
— Tão em segredo quanto um casamento envolvendo Taylor King pode ficar.
Ela sabia que aquilo era humilhante.
Sabia que era uma ideia absurda.
Mas existia uma parte dela…
Pequena.
Exausta.
Vergonhosamente esperançosa.
Uma parte que desejava apenas seis meses sem voltar para um apartamento silencioso todas as noites.
Seis meses sentindo-se escolhida.
Mesmo que fosse mentira.
Seis meses fingindo que a aliança significava algo enquanto o futuro parecia se resumir a exames médicos e olhares cheios de pena.
Ela acreditou que conseguiria suportar a farsa desde que jamais esquecesse que era uma farsa.
O que não previra foi isto.
Taylor mudando diante de seus olhos.
Pouco a pouco.
Dia após dia.
Até que ela já não conseguia distinguir onde terminava a atuação e começava o homem real.
O carro entrou na garagem subterrânea privativa do edifício.
Quando chegaram ao elevador, as pernas de Maya pareciam vazias.
Ela apoiou discretamente as costas na parede espelhada.
Taylor percebeu imediatamente.
— Você está bem?
— Estou.
— Esse foi o “estou” menos convincente que já ouvi.
— Só estou cansada.
O elevador subiu em silêncio absoluto.
Refletidos no espelho e no metal dourado, pareciam um casal voltando de uma noite perfeita.
Elegantes.
Ricos.
Bonitos juntos.
Compatíveis à primeira vista.
Maya quase riu da ironia cruel daquela imagem.
As portas se abriram.
A cobertura os recebeu com luz quente e uma tranquilidade tão absoluta que parecia planejada por arquitetos.
Taylor sempre dizia que gostava do silêncio porque passava os dias ouvindo pessoas falarem sem parar.
Para Maya, no início, aquele lugar lembrava uma sala VIP de aeroporto desenhada por alguém com medo de excessos.
Bancadas de pedra.
Tapetes cinza.
Poltronas modernas bonitas demais para serem usadas.
Quadros enormes que transmitiam importância, mas pouca emoção.
Com o tempo, porém, ela aprendera os ritmos daquele lugar.
O zumbido discreto do sistema de climatização.
O murmúrio distante da cidade atravessando os vidros.
A forma como o pôr do sol pintava a mesa de jantar de dourado durante exatos doze minutos no final de março.
Taylor afrouxou a gravata borboleta.
— Você deveria sentar.
— Estou bem.
Maya deu três passos em direção à sala.
Então o chão desapareceu.
Não foi algo dramático no começo.
