A minha madrasta pensou que tinha finalmente vencido quando…

A primeira coisa que chamou minha atenção foi a forma como o pôr do sol refletia no vidro da janela do meu apartamento.

Tinha sido um daqueles dias longos e exaustivos, capazes de drenar até o último resquício de energia, em que a cidade parecia uma máquina implacável me triturando aos poucos antes de me cuspir de volta para a rotina. Meu laptop permanecia aberto sobre a bancada da cozinha, exibindo um e-mail inacabado que parecia me encarar com reprovação silenciosa. Eu estava parada diante da janela, segurando o telefone junto ao ouvido, enquanto observava o contorno irregular dos arranha-céus recortando um céu tingido por tons intensos de laranja e rosa.

E então, no meio daquele silêncio carregado, a voz que eu menos queria ouvir surgiu do outro lado da linha, impregnada de um veneno quase alegre:

— Você está proibida de entrar na casa de praia da família para sempre.

As palavras de Victoria atravessaram o telefone como um chicote, secas e cortantes, como se até o sinal da operadora tivesse dificuldade em suportá-la.

Apertei o aparelho com mais força.
— O quê?

— Já troquei todas as fechaduras — continuou ela, saboreando cada sílaba. Eu conseguia imaginá-la perfeitamente: unhas impecavelmente feitas batendo em uma bancada de mármore enquanto falava. — Nem pense em tentar entrar lá. Isso é exatamente o que você merece por ter arruinado a festa de formatura da Lily.

Fiquei encarando meu reflexo no vidro: o cabelo escuro preso de maneira descuidada em um coque improvisado, um suéter largo caindo de um dos ombros, olheiras suaves denunciando noites demais sem dormir e descanso de menos. Lá embaixo, em algum ponto distante da rua, uma buzina ecoou. No céu, um avião deixava uma linha branca entre as nuvens.

— A festa… — falei lentamente, mais curiosa para descobrir até onde ela pretendia levar aquela encenação. — Aquela para a qual você fez questão de não me convidar?

Victoria soltou um riso debochado.
— Ah, por favor.

— A mesma festa em que você contou para todo mundo que eu estava ocupada demais para comparecer à comemoração da minha própria meia-irmã?

Meu tom permaneceu calmo, neutro, cuidadosamente controlado. Anos de prática haviam me ensinado a esconder qualquer rachadura emocional antes que alguém pudesse percebê-la. Especialmente Victoria. Ela se alimentava da dor alheia como se fosse combustível.

Ela riu outra vez, e o som frágil e metálico pareceu raspar contra minha pele.
— Não se faça de vítima, Alexandra. Todo mundo sabe que você sempre teve inveja do sucesso da Lily. E agora nunca mais vai pisar naquela casa de praia. Eu garanti isso pessoalmente.

Inveja.

Aquela palavra de novo.

Desde o dia em que se casou com meu pai, Victoria transformara aquilo em uma etiqueta permanente para mim — não porque fosse verdade, mas porque era conveniente para a narrativa dela.

Por trás do reflexo na janela, quase consegui enxergar outra imagem sobreposta ao vidro: uma varanda ampla cercando a casa, a tinta branca do corrimão começando a descascar nos cantos, uma antiga cadeira de balanço rangendo ao vento e, além dela, o brilho infinito do Atlântico. A casa de praia.

A risada da minha mãe atravessou minha memória, calorosa e viva, misturada ao cheiro de maresia.

“Alex, olha o tamanho daquela onda! Juro que ela é maior do que você era aos cinco anos.”

Pisqei rapidamente, afastando o fantasma das lembranças e retornando ao presente.

— A casa não pertence a você, Victoria. Você não pode me expulsar dela — respondi em voz baixa.

— Ah, mas posso, sim — rebateu ela, e eu conseguia ouvir o sorriso triunfante escondido em cada palavra. — Seu pai transferiu tudo para o meu nome no mês passado. Agora ela é minha, e eu não quero você nem perto daquele lugar. Você é exatamente igual à sua mãe. Sempre achando que tem direito a tudo.

A provocação era tão previsível que quase não doeu.

Um pequeno sorriso surgiu no canto da minha boca — invisível para ela, mas satisfatório para mim.
— Obrigada por me avisar sobre as fechaduras — falei calmamente.

Houve alguns segundos de silêncio confuso.
— O que isso quer di—

Desliguei antes que ela terminasse.

O silêncio que veio depois pareceu ensurdecedor.

A cidade continuava viva do lado de fora: sirenes distantes, alguém gritando na rua, a batida abafada de música vindo do apartamento vizinho. Dentro de casa, existiam apenas eu, o zumbido constante da geladeira e o eco arrogante da declaração de Victoria.

Proibida de entrar na casa de praia.

Guardei o telefone no bolso e caminhei pelo corredor até meu pequeno escritório improvisado. Na verdade, era mais um canto apertado do apartamento: uma mesa antiga de madeira, uma cadeira comprada de segunda mão e várias caixas de arquivos desalinhadas empilhadas perigosamente no canto. Uma planta esquecida, que eu sempre prometia regar e nunca lembrava, pendia tristemente perto da janela.

Ajoelhei-me diante do arquivo metálico e puxei a última gaveta.