«Minha pequena esposa»: seis anos de ternura, fidelidade e amor verdadeiro

Capítulo 1. «Minha pequena esposa»: quando o cuidado começa a assustar

Durante muito tempo, Lydia Sokolova não conseguia entender em que momento sua vida familiar tranquila deixou de parecer segura.

Após uma ligação da clínica, ela ficou sentada na cozinha no escuro. Não queria acender a luz. O telefone estava deitado ali perto sobre a mesa, a tela havia se apagado há muito tempo, mas a voz do médico ainda soava em sua cabeça, como se a gravação tivesse sido repetida:

— Traços de sedativo forte foram encontrados na amostra fornecida. Com o uso regular, pode ser viciante, lapsos de memória e reações emocionais monótonas.

Lydia lentamente apertou os dedos no punho.

— Tem certeza de que estava errado? — então ela perguntou quase silenciosamente.

— Não. Esta definitivamente não é uma infusão comum de ervas, como você poderia esperar.

Agora, lembrando-se dessa conversa, ela olhou para o vidro que estava à sua frente sobre a mesa. O vidro mais comum. Mesmo muito comum.

Naquele momento Egor entrou na cozinha.

— Você ainda não foi para a cama? — ele perguntou suavemente, quase com ternura. — Achei que você já estava descansando, minha pequena esposa.

Ele sorriu com seu sorriso habitual. Calmo, confiante, um pouco paternalista. Como se tudo ao seu redor estivesse sob seu controle.

Lydia tinha algo dolorosamente encolhendo dentro dela.

— Não consegue dormir, — ela respondeu com cautela.

Egor colocou uma bandeja sobre a mesa e sentou-se em frente. Todos os seus movimentos eram precisos, medidos, quase aprendidos.

— Amanhã te darei outro campo de treinamento, — ele disse calmamente. — Você se tornou muito impressionável ultimamente.

Muito impressionável.

Esta frase atingiu inesperadamente forte.

Lydia lembrou-se de repente dos últimos anos: como a ansiedade e as dores de cabeça desapareceram gradualmente, como os pensamentos se tornaram mais silenciosos, mais lentos, mais suaves, como se estivessem envoltos em algodão. Anteriormente, ela explicou isso por amor, idade, paz, que finalmente entrou em sua vida.

Agora tudo parecia diferente.

Muito perigoso caso contrário.

— Egor, — ela disse devagar, — o que exatamente você está colocando no meu beber?

Ele nem piscou.

— Ervas. Mel. Tudo o que te ajuda a relaxar e adormecer.

Houve uma pausa.

Então ele acrescentou:

— Por que você está perguntando?

Nesse segundo, o silêncio na cozinha tornou-se espesso, quase tangível.

Lydia notou que ele olhou para ela um pouco mais do que o normal. Não como um marido amoroso. Mais como uma pessoa que calcula rapidamente as opções possíveis.

— Acabei de ficar curiosa, — ela respondeu e se fez sorrir.

Mas já não resta confiança lá dentro.

Ela não bebeu a bebida naquela noite.

Ela fingiu beber.

Egor a observou por mais tempo do que o normal. Fiquei na porta do quarto enquanto ela se acomodava debaixo do cobertor.

— Boa noite, minha pequena esposa, — ele disse baixinho.

E ele foi-se embora.

Mas a Lydia não adormeceu.

Ela deitou-se no escuro e pela primeira vez em seis anos ouviu a sua própria casa de forma diferente: o ranger de tábuas do chão, passos longos, o som da água na cozinha, movimentos cuidadosos atrás da parede.

Por volta das três horas da manhã ela ouviu Yegor se levantar novamente.

Lydia silenciosamente saiu da cama e se aproximou da porta.

E vi que ele estava segurando o prontuário dela nas mãos.

Não um telefone.

Não um livro.

Não papéis aleatórios.

E o histórico médico dela.

Egor ficou no corredor e folheou lentamente as páginas, quase com cuidado, quase com cuidado.

E foi neste momento que a Lydia se apercebeu

nunca foi apenas uma preocupação.

Foi algo muito mais pensativo.

E começou muito antes dos seis anos de casamento.

Capítulo 2. Bebida de camomila e segredos que não devem vir à tona

Lydia congelou no corredor semi-escuro, hesitante em se mover. O coração batia tão alto que lhe pareceu que — Egor deveria até ouvi-lo de costas. Ele ainda mantinha o prontuário dela. Não escondi. Não se preocupou. Não parecia um homem que foi pego de surpresa.

E foi isso que mais me assustou.

Ele agiu como se tivesse todo o direito de ler os documentos dela no meio da noite.

Egor virou cuidadosamente a página.

— Curioso… — ele disse baixinho, mais para si mesmo.

Lydia recuou e tocou a parede com o ombro. A metade rangia lamentavelmente.

Egor levantou a cabeça.

Pausa.

E depois sorriu.

— Você está acordado, minha pequena esposa?

A voz permaneceu a mesma — suave, suave, quase afetuosa. Só agora algo mais foi ouvido nele. Frio. Calculando.

Lydia saiu para o corredor, tentando manter a calma.

— O que você está fazendo com meus registros médicos?

Ele fechou lentamente a pasta.

— Vejo se está tudo bem com você. Tens estado muito nervoso ultimamente.

— Nervoso? — a voz dela tremeu. — Ou finalmente comecei a perguntar?

Egor deu um passo em direção a ela. Não abruptamente. Não ameaçador. Mas muito confiante.

— Você está cansado. Precisas de mais descanso. Mais sono. Mais silêncio.

Anteriormente, essas palavras soavam como cuidado para ela.

Agora pareciam um compromisso.

Naquele momento, Lydia sentiu o cheiro familiar de camomila. Estendeu a mão cozinhas.

Esse mesmo cheiro.

— Você já preparou uma bebida para mim? — ela perguntou.

— Claro, — Egor respondeu calmamente. — Como sempre.

E então algo dentro dela finalmente terminou.

Ela lembrou-se de tudo de uma vez: os primeiros meses após o casamento, como ele insistiu que ela trabalhasse menos, como ele começou a vigiar o regime dela, como os seus amigos desapareceram gradualmente das suas vidas. Primeiro um, depois outro. Egor sempre teve uma explicação: «eles sobrecarregam você», «depois deles você está nervoso», «você precisa de paz».

Lydia recuou lentamente.

— Eu não vou beber.

O rosto de Yegor não mudou.

— Você vai, — ele disse baixinho.

Não rude.

Não alto.

Tal como um facto incontestável.

E acabou por ser pior do que qualquer grito.

Ele passou por ela até a cozinha e Lydia, quase sem entender o que estava fazendo, o seguiu. Lá dentro, era como se duas mulheres estivessem discutindo: uma ainda queria acreditar no amor a que se acostumou por seis anos, a outra já estava acordando e exigindo a verdade.

Na cozinha, Egor ficou à mesa e preparou sua bebida noturna.

Vidro.

Água morna.

Mel.

Camomila.

E uma pequena garrafa de âmbar.

A Lydia viu-o a adicionar umas gotas de líquido transparente ao copo. O movimento era tão familiar que ele nem pensava nisso.

— Quantas vezes você fez isso? — ela sussurrou.

Egor não se virou.

— Basta você finalmente ficar calmo.

Os olhos de Lydia escureceram.

— Calma? Ou conveniente?

O silêncio chegou.

Apenas a colher tocou silenciosamente no copo.

Egor finalmente olhou para ela.

— Você realmente acha que é a primeira, Lydia?

Naquele momento o frio passou pelas costas dela.

Porque ele não disse isso como uma ameaça.

Ele disse isso como se estivesse apenas continuando uma conversa antiga sobre a qual ela ainda não sabia nada.

Capítulo 3. A mulher que veio antes dela

A frase de Yegor pairava entre eles como um pedaço de vidro afiado.

— Você realmente acha que é a primeira, Lydia?

Ela não pôde responder imediatamente. Eu apenas olhei para ele e tentei encontrar em seu rosto pelo menos algo familiar — daquele instrutor de ioga suave e atencioso que há seis anos sorriu para ela como se fosse impossível ter medo ao lado dele.

Mas agora uma pessoa completamente diferente estava na frente dela.

E ele não tentou mais se esconder.

— O que você quer dizer com isso? — ela finalmente perguntou.

Egor calmamente colocou o copo sobre a mesa. Superfície beber mal visivelmente tremia.

— Exatamente o que ele disse.

Sentou-se, apertou os dedos e olhou para ela como se fosse uma mudança de casa.

— Antes de você, eu já tinha esposa.

Lydia achou que o ar era mais denso.

— Era?

— Sim, — ele assentiu. — Mas ela não aguentou.

Esta palavra atingiu com mais força do que a própria confissão.

Lydia deu um passo atrás.

— O que você quer dizer com — não suportava?

Egor olhou para ela com muito cuidado.

— Cansado. Ficou desconfiado. Comecei a fazer perguntas. Parei de dormir normalmente.

Ele ficou em silêncio por um segundo.

— Quase como você agora.

O frio subia do estômago à garganta.

— Onde ela está agora, Egor?

Ele não respondeu imediatamente. Peguei um copo com beber e lentamente virou-o nas mãos.

— Você realmente quer saber disso?

Silêncio.

Neste silêncio, Lydia sentiu-se claramente pela primeira vez: esta conversa estava a decorrer de acordo com um cenário que ele há muito pensava.

— Sim, — ela disse com firmeza.

Egor colocou o vidro de volta na mesa.

— Ela foi embora. Depois que comecei a ver algo que não acontecia.

— Ou o que realmente aconteceu? — perguntou Lydia nitidamente.

Ele sorriu ligeiramente.

E havia quase simpatia neste sorriso.

— Você começa a dizer isso em palavras.

Naquele momento, Lydia notou uma caixa velha no canto da cozinha. Ela nunca tinha prestado atenção nela antes. As etiquetas foram cuidadosamente coladas na lateral. Datas. Nomes.

O coração tremia dolorosamente.

— O que há? — ela perguntou.

Egor seguiu seu olhar.

— Nada que você precise ver.

Mas ele nem tentou tirar a caixa.

E foi pior do que qualquer confissão.

Lydia deu um passo em sua direção.

— Não venha, — ele disse calmamente.

Nada de gritar novamente. Sem ameaças. Apenas controle que ela está se acostumando há muito tempo.

Ela parou.

Então Egor mudou de rosto pela primeira vez em toda a conversa. Seu olhar ficou mais duro.

— Você bebe o que eu te dou todas as noites, Lydia.

Ele disse isso quase carinhosamente.

— Ajuda você a ficar aqui. Ao meu lado. Na realidade que você pode suportar.

Lydia olhou bem para cima.

— E isso é o que você chama de realidade?

Egor se aproximou.

— Tem certeza de que se lembra de tudo corretamente?

Essas palavras tiveram um efeito estranho nela. Não como uma ameaça. Como um espinho em dúvida.

E isso acabou sendo o pior.

Porque Lydia de repente percebeu: ela não está apenas tentando revelar o segredo dele.

Ela começa a duvidar de si mesma.

E foi nesse momento que o seu antigo telefone tocou noutra sala, que ela não usava há muito tempo.

A tela piscou.

Nele apareceu um nome que ela considerou abandonado há muito tempo no passado.

Um nome da vida antes de Yegor.

Capítulo 4. Um chamado do passado e uma verdade que não podia ser enterrada

O telefone tocou persistentemente, cortando o silêncio do apartamento, como se alguém do lado de fora estivesse tentando romper uma parede que a própria Lydia não havia notado todos esses anos.

Ela não se mexeu.

Egor também.

Ambos olharam para a sala, onde a tela de um telefone antigo piscava na mesa.

— Resposta, — ele disse baixinho.

Não houve solicitação ou ordem direta nesta palavra. Mais como uma observação. Verificar.

Lydia deu um passo lentamente.

— Por que ele está aqui? — ela perguntou sem tirar os olhos da tela.

— Você mesmo o deixou, — respondeu Egor. — Depois de se mudar. Não te lembras?

Ela não se lembrava.

E este foi o primeiro golpe real.

O telefone ficou em silêncio, mas quase imediatamente tocou novamente. O nome na tela continuou a brilhar, como se exigisse que ele fosse finalmente reconhecido.

A Lydia pegou no telefone.

— Olá…

Pausa.

Então a voz de um homem, rouca e cuidadosa:

— Lídia… sou eu.

Ela fechou os olhos.

— Andrey? — ela exalou.

Egor inclinou ligeiramente a cabeça.

Ele ouviu.

Com muito cuidado.

— Tentei entrar em contato com você por vários meses, — disse Andrey. — Você acabou de desaparecer. Absolutamente. Lembras-te do que aconteceu antes de partires?

Lydia sentiu que o chão sob seus pés parecia ter se tornado macio e pouco confiável.

— I… Eu me casei, — ela disse incerta.

Pausa novamente.

E então Andrei pronunciou uma frase, após a qual o velho mundo finalmente quebrou:

— Lydia… você nunca se tornou oficialmente esposa dele.

Silêncio.

Tal silêncio nunca é comum.

Só acontece quando a realidade se rompe mesmo diante dos nossos olhos.

Lydia virou bruscamente em direção a Yegor.

— O que ele disse agora?

Egor não parecia surpreso.

Ele parecia quase cansado.

— Você está cansado, — ele disse calmamente. — Você está confundindo os acontecimentos novamente.

Lydia apertou o telefone com tanta força que seus dedos ficaram brancos.

— Ele diz que não somos casados.

Egor lentamente se aproximou.

— O que é verdade para você agora, Lydia? Documentos? A voz de outra pessoa ao telefone? Sucata de memórias? Ou seis anos a viver ao meu lado?

Essas palavras batem mais forte do que qualquer confissão.

Andrey continuou a falar ao telefone:

— Lydia, você desapareceu após o tratamento. Depois daquela clínica… você parou de atender todo mundo. Nós pensamos…

Egor estendeu bruscamente a mão.

— Dê-me o telefone.

Mas Lydia recuou pela primeira vez.

— Não venha.

Sua voz tremia, mas já havia aparecido nela uma força que não existia antes.

E então ela notou algo que ela não tinha prestado atenção antes: havia uma marca fina em seu pulso, semelhante a uma marca antiga de uma pulseira médica. Mal perceptível. Quase desapareceram.

Ela perdeu o fôlego.

— O que você fez comigo? — ela sussurrou.

Egor parou.

E pela primeira vez em todos esses anos, seu rosto ficou absolutamente aberto.

— eu salvei você, Lydia.

Pausa.

— De mim mesmo.

O telefone em sua mão ainda transmitia a voz de Andrei, mas parecia distante, como se viesse de outra vida.

Lydia olhou para a cozinha. Para caixas com datas. Para um copo de camomila. Em Yegor, que estava entre ela e seu passado, como um vigia em uma porta trancada.

E pela primeira vez ela percebeu:

a pior pergunta não é o que ele fez com ela.

A pior pergunta é —, de qual delas ela ainda consegue se lembrar.

FINAL