«Volta para o buraco de onde saíste e fiquem grata por eu vos ter deixado sair daqui.»

Do outro lado da linha, instalou-se um silêncio pesado. Depois, ouviu-se uma voz suave e tranquila, que Clara nunca esqueceu.
— Eu sabia que um dia me ligarias.


Clara fechou os olhos. O coração batia-lhe forte, mas as mãos já não tremiam. Já não era aquela rapariga assustada no hall da villa. Era uma mulher que conhecia a verdade.
— Expulsaram-me como se fosse um cão, disse ela simplesmente. Sem um único centavo, sem nada. Agora é hora de eles também descobrirem quem eu realmente sou.
Nos dias seguintes, Clara desapareceu completamente de vista. A imprensa já não tinha mais nada para escrever sobre ela.
Alexandru estava convencido de que a sua ex-mulher tinha voltado «para o buraco» de onde tinha vindo: para uma aldeia empoeirada na Moldávia, para uma vida insignificante que todos tinham esquecido.
Mas aquele «buraco» era o lugar onde tudo tinha começado.
Há anos, antes dos Negru, antes dos vestidos caros e das mesas luxuosas, Clara era filha de um homem simples, mas extremamente respeitado: um engenheiro que descobriu um terreno repleto de recursos, mais tarde comprado por um preço ridículo através de pessoas colocadas lá propositadamente.
O seu pai morreu num «acidente» suspeito e o projeto acabou, milagrosamente, nas mãos da família Negru.
Clara sabia de tudo. Documentos, assinaturas, transferências. Conhecia nomes, montantes, datas. Sabia que o império deles tinha sido construído com base num roubo.

Num modesto escritório na cidade distrital, Clara abriu um volumoso processo que estava há anos guardado num cofre improvisado. Colocou-o sobre a mesa e respirou fundo.
— Vamos começar por aqui, disse ela.
As coisas começaram a avançar lentamente. Uma queixa criminal. Depois outra. Uma investigação reaberta. Um jornalista curioso. Um procurador que já não tinha nada a perder.
Quando saíram os primeiros artigos sérios, Alexandru riu-se.
— Mentiras. Desespero.
Riu-se até ao dia em que lhe congelaram as contas.
Até ao dia em que os procuradores bateram à sua porta.
Até ao dia em que a Sra. Beatrice, elegante como sempre, foi intimada para interrogatório.
Clara observava tudo à distância. Sem qualquer satisfação mesquinha. Apenas com um sentimento de justiça tardia.
Certa manhã, regressou à cidade. Não à villa. Mas ao notário.
Assinou os últimos papéis.
Divórcio. Renúncia ao apelido Negru.
Quando saiu, o sol brilhava. Pela primeira vez em muito tempo, Clara sorriu.
Alguns meses depois, a villa foi colocada em leilão. O império desmoronou-se. Alexandre foi a tribunal e a sua mãe já não ditava nada a ninguém.

A Clara criou uma pequena empresa honesta. Investiu nas pessoas, não em mentiras. Viajava frequentemente à aldeia de onde tinha partido, renovou a casa onde nasceu e colocou uma placa simples no portão.
«A honestidade não está à venda.»
Uma noite, tirou do armário uma mala velha. Ficou a olhar para ela por um momento.
Depois, fechou as portas do passado. E seguiu em frente, de cabeça erguida.