«Tia, não quer casar com o meu irmãozinho? Ele tem cinco meses desde que nasceu.»

Fiquei parada na entrada, ainda com o casaco vestido, como se fosse apenas uma visita. Mas as pernas não me obedeciam. Algo me mantinha ali, como se a porta se tivesse fechado atrás de mim sem que eu o tivesse ouvido.
A menina estava sentada numa cadeira, com as mãos cruzadas no colo.
— Como te chamas? perguntei-lhe baixinho.
— Ana. E ele é o Matei.

Aqueles nomes soaram pesados. Nomes simples. Nomes de crianças que deviam estar a brincar, não no meio de uma tragédia.
Um paramédico saiu do quarto e acenou com a cabeça.
— A mãe está viva. Está em estado grave, mas vamos levá-la para o hospital.
A Ana não chorou. Apenas perguntou:
— Ela vai ficar bem outra vez?
Ninguém sabia o que responder.

O pessoal dos serviços de proteção à criança começou com os procedimentos. Falavam de centros, de documentos, de «acolhimento temporário». Palavras grandes e frias que nada tinham a ver com os olhos da Ana.
— Posso ir com o meu irmãozinho? perguntou ela.
Silêncio.
— Não é possível, disse uma mulher, evitando o seu olhar. Por enquanto, cada um de vocês irá para um lugar diferente.
Foi então que a Ana se desmoronou. Não em voz alta. Não histericamente. Apenas uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto.

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— Por favor… sou eu que o alimento. Sou eu que o seguro à noite. Sem mim, ele chora…
Apanhei-me a falar sem pensar:
— Posso ficar com eles. Pelo menos temporariamente.
Todos olharam para mim.
— É parente?
— Não.
— Então é complicado.
— Eu sei. Mas não é impossível.
Seguiram-se dias de idas e vindas. Papéis. Declarações. Viagens entre a repartição, a assistência social e o hospital. Gastei dinheiro em leite em pó, fraldas, roupa. Dinheiro que não tinha planeado gastar, mas já não importava.
Na primeira noite, a Ana dormiu aconchegada ao irmãozinho no sofá.

— Quando eu for embora, prometes-me que vais cuidar dele? perguntou-me ela com uma voz suave.
— Prometo.
A mãe deles sobreviveu. Após meses de internamento, foi transferida para um lar. O pai nunca mais apareceu.
Um dia, a Ana perguntou-me:
— Tia… vamos ficar aqui por muito tempo?
Sentei-me ao lado dela.
— O tempo que precisarem.
Os anos passaram. A Ana cresceu. O Matei começou a rir, a andar, a correr pela casa.

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Não foi um caminho fácil. Houve noites sem dormir, medo, dúvidas. Mas também havia vida. A verdadeira.
Uma noite, a Ana abraçou-me e disse-me:
— Lembras-te de quando te perguntei se querias um bebé?
Sorri com lágrimas nos olhos.
— Sim.
— Naquela altura, não procurava alguém que nos aceitasse. Procurava alguém que ficasse.
E eu fiquei.