Isabella estava ao lado da ilha, segurando uma faca de açougueiro. Seus olhos estavam arregalados, inquietos, avaliando a distância até a porta dos fundos.
— Elias? — sussurrou, com a voz trêmula. — É… é você? Por que está vestido assim? Você não devia estar aqui!
— O coelho chegou mais cedo este ano, Isabella — respondi, avançando até ficar sob a luz do exaustor. — Ele ouviu dizer que havia algo podre na casa dele. Ouviu dizer que alguém andava brincando com chá… e digitalis.
Ela tentou rir, mas o som saiu quebrado, artificial, desagradável.
— Você enlouqueceu de vez. A guerra acabou com você. Está falando besteira. Saia da minha casa!
— Esta casa é minha, Isabella. Eu a construí para Sarah. Para uma mulher que você matou.
Dei mais um passo.
Ela avançou de repente. A lâmina cortou o ar com um assobio rápido.
Mas aquilo não era combate — era desespero.
Passei anos treinando para situações muito piores. Uma mulher armada com uma faca de cozinha não representava ameaça real para alguém da 82ª Divisão Aerotransportada.
Agarrei seu pulso. A luva felpuda da fantasia surpreendentemente ofereceu firmeza suficiente. Torci com precisão — a faca caiu no chão de madeira com um som seco.
Imobilizei Isabella contra o balcão. O rosto do coelho ficou a poucos centímetros do dela.
— Me diga o que você fez — sibilei. — Diga como matou ela.
— Eu não fiz nada! — gritou. — Ela era fraca! O coração simplesmente parou!
— Eu tenho os relatórios, Isabella. Tenho os exames da exumação. Tenho registros de farmácias no Oregon. Sei dos outros dois maridos.
Foi nesse momento que algo mudou.
O medo desapareceu do rosto dela, como se nunca tivesse existido. No lugar, surgiu algo vazio, frio, calculado.
Ela parou de resistir.
Olhou diretamente para mim — através da malha dos olhos do coelho — e sorriu.
Foi o sorriso mais perturbador que já vi.
— Então você descobriu… — murmurou. — E agora, Elias? Vai me matar? Vestido assim? Você é um soldado… um homem de honra. Vai chamar a polícia. E eu vou dizer que você voltou transtornado, consumido por traumas de guerra. Vou mostrar os hematomas no meu pulso. Vou dizer que você me ameaça há meses. Em quem você acha que vão acreditar? No capitão herói… ou na viúva dedicada cuidando da filha “instável”?
Ela se inclinou mais perto. Seu hálito tinha cheiro de vinho caro.
— Eu já venci, Elias. Já contaminei tudo ao seu redor. Vizinhos, escola, a base… todos acham que o problema é você. Se eu morrer hoje, você vai para a prisão — e Lily vai para o Estado. E pode acreditar… ninguém vai protegê-la do que eu já coloquei dentro dela.
Apertei mais forte. Quase sem perceber.
Queria esmagar a vida dela ali mesmo.
Meu polegar pressionou a artéria carótida.
Dez segundos, pensou o soldado dentro de mim. Dez segundos e a ameaça acaba.
Mas então—
— Papai?
A voz veio da entrada da cozinha.
Lily estava ali, segurando seu velho ursinho desgastado.
Mas ela não olhava para mim.
Seus olhos estavam fixos no copo de água sobre o balcão — o mesmo que Isabella havia deixado ali.
Ao lado dele… uma garrafa aberta de produto de limpeza industrial.

Capítulo 5: A Armadilha é Disparada
— Lily, volte para o andar de cima! — ordenei, já sem manter a voz disfarçada.
— Não — respondeu ela.
Mas algo estava diferente. A voz não tremia mais. Era vazia, plana… aquele mesmo tom distante que eu já tinha percebido nas chamadas via satélite.
— Ela vai me obrigar a beber isso, papai… disse que se eu não tomar a “água mágica”, o Cooper nunca mais volta do porão.
O porão.
Olhei imediatamente para Isabella. Seus olhos se arregalaram — um lampejo de pânico genuíno. Ela havia esquecido um detalhe essencial: eu conhecia cada centímetro daquela casa. Fui eu quem a construiu. Inclusive o compartimento oculto no porão — um espaço que ela nunca deveria ter descoberto.
— Onde está o cachorro, Isabella? — rosnei.
— Ele… ele está bem — gaguejou, já sem a confiança de antes. A vantagem dela estava desaparecendo.
Não esperei resposta.
Empurrei-a até a lavanderia e tranquei a porta, aprisionando-a naquele espaço estreito. Em seguida, peguei Lily no colo — ainda vestindo a fantasia ridícula — e corri em direção às escadas do porão.
— Ele está na sala de equipamentos, Lily?
— Ela colocou ele numa caixa escura… — soluçou Lily contra meu ombro.
Desci as escadas com pressa e chutei a porta do compartimento secreto.
Lá estava Cooper.
Encolhido no canto de uma caixa plástica grande, magro, sujo, o pelo dourado emaranhado… mas vivo. Quando me viu, sua cauda se moveu, fraca, batendo contra o plástico.
Soltei o ar como se estivesse prendendo a respiração há anos.
Coloquei Lily no chão.
— Fique aqui com ele. Não suba até eu chamar, entendeu?
Ela assentiu.
Virei-me e subi novamente.
Agora, não havia mais coelho.
Havia apenas o executor.
Cheguei à lavanderia, destranquei a porta — e ela não estava mais lá.
