A médica continuou movendo o aparelho devagar.
De repente, franziu a testa.
— A senhora teve algum parto antes das suas duas filhas?
Abri os olhos.
— Não. Apenas Camila e Renata.
— Tem certeza?
Fiquei imóvel.
— Sim.
Ela observou a tela novamente e depois consultou meus registros.
— Há sinais de uma antiga cesariana.
Meu coração acelerou.
— Isso é impossível.
— E não é referente às suas filhas, porque os registros mostram que ambas nasceram por parto normal.
O quarto pareceu girar ao meu redor.
— Não… isso não faz sentido.
A médica chamou outro profissional.
Os dois analisaram documentos e trocaram palavras em voz baixa.
Eu só conseguia captar fragmentos soltos:
“cicatriz interna”…
“procedimento anterior”…
“arquivo antigo”…
“registros hospitalares”…
Quase uma hora depois, o médico retornou.
Trazia uma pasta amarelada pelo tempo.
Mariana estava ao seu lado.
A expressão dos dois me fez estremecer.
— Senhora Lúcia — começou ele com delicadeza — encontramos um registro de sete anos atrás. A senhora foi internada neste mesmo hospital durante um parto complicado.
— Sim — sussurrei. — Quando Camila nasceu.
Ele abriu a pasta.
— Consta aqui que, naquele dia, a senhora estava grávida de gêmeos.
O ar desapareceu dos meus pulmões.
— Não.
Mariana aproximou-se da cama.
— Lúcia…
— Não — repeti, sentindo a voz falhar. — Eu tive apenas a Camila. Disseram que era filha única. Disseram que eu desmaiei porque perdi muito sangue.
O médico virou mais uma página.
— Segundo este registro, dois bebês nasceram naquele dia.
Meu coração parou.
— Uma menina… e um menino.
O mundo inteiro mergulhou em silêncio.
Já não ouvia nada além das próprias batidas do meu coração.
Um menino.
Meu filho.
O filho que Raul exigira durante anos, como se eu tivesse escolhido não lhe dar um herdeiro.
Senti o sangue desaparecer do meu rosto.
Minha voz saiu quase inaudível.
— Onde ele está?
A pergunta me aterrorizava mais do que qualquer resposta.
Mesmo assim, eu precisava saber.
— Onde está o meu bebê?**

Mariana respirou fundo antes de responder.
— O prontuário informa que o menino foi declarado morto poucas horas após o nascimento. Mas encontramos várias inconsistências. Não existe certidão de óbito. Não há registro da entrega do corpo à família. E também não encontramos nenhuma assinatura sua autorizando qualquer procedimento.
Meu corpo começou a tremer.
— Porque eu estava sedada — respondi. — Deram medicamentos para me manter inconsciente. Dona Eulália disse que era necessário. Foi ela quem assinou tudo.
O médico trocou um olhar sério com Mariana.
— Existe uma autorização registrada. A assinatura é de Eulália Mendoza.
Instintivamente coloquei as mãos sobre a barriga. Não era o bebê que eu carregava que eu tentava proteger naquele momento.
Era o filho que haviam arrancado de mim.
De repente, a porta se abriu com violência.
Raul estava escutando tudo do lado de fora.
— O que vocês estão dizendo?
Atrás dele surgiu Dona Eulália, pálida como um fantasma.
— Não acredite neles, meu filho. Isso tudo é mentira.
Raul arrancou a pasta das mãos do médico.
Leu uma linha.
Depois outra.
E mais uma.
Suas mãos começaram a tremer.
— Aqui diz… masculino.
O silêncio tomou conta do quarto.
— Mãe… — sua voz saiu estranha, irreconhecível. — Eu tive um filho?
Dona Eulália apertou os lábios.
— Aquele menino nasceu defeituoso.
Raul ergueu a cabeça.
— O que você fez com ele?
— Eu o salvei de uma vida miserável! — gritou ela.
E naquele grito veio a confissão.
— Ele nasceu pequeno, frágil. Ia trazer desgraça para todos nós.
— Onde ele está? — perguntou Raul.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, mas não despertaram nenhuma compaixão em mim.
Eram lágrimas de alguém encurralado.
— Sua prima Maribel não podia ter filhos — respondeu. — O marido dela estava prestes a abandoná-la. Eu apenas fiz o que era melhor para a família. O menino está vivo. Vive com ela em Charleston.
Algo dentro de mim se partiu.
E ao mesmo tempo incendiou.
— Ela roubou meu filho.
Dona Eulália me lançou um olhar cheio de ódio.
— Você não merecia aquele menino. Era pobre, fraca, reclamava de tudo. E depois ainda me deu outra menina. O que as pessoas iriam pensar?
Raul caiu sentado numa cadeira.
Durante anos me espancou porque eu não lhe dava um filho homem.
E durante todos aqueles anos sua própria mãe havia escondido o filho que eu realmente dera à luz.
Mas naquele instante eu já não olhava para Raul.
Não me importavam sua culpa, sua surpresa ou suas lágrimas tardias.
Minha dor tinha outro nome.
— Eu quero vê-lo.
Minha voz saiu firme.
— Quero meu filho.
Mariana assentiu.
— Vamos abrir uma investigação formal. Estamos diante de sequestro, falsificação de documentos e violência doméstica. Mas tudo precisa ser feito da maneira correta.
