Os jantares em família sempre foram algo que eu esperava ansiosamente.
Todos os domingos, eu me encontrava com a minha irmã Mia, o seu marido Alex e os seus dois filhos na casa deles.
O ambiente era acolhedor e hospitaleiro, e eu aproveitava o tempo que passávamos juntos para recuperar o tempo perdido.
Mas, nos últimos meses, algo estranho estava a acontecer.
Durante esses jantares, não pude deixar de notar que Alex, meu cunhado, ficava olhando para mim constantemente.

Não era um olhar casual que um membro da família lança a outro durante uma conversa.
Não, era mais intenso: os olhos dele ficavam fixos em mim, sempre que eu não percebia.
Eu capturava o seu olhar do outro lado da mesa e, quando os nossos olhos se encontravam, ele rapidamente desviava o olhar, como se estivesse envergonhado, e fazia o mesmo alguns minutos depois.
No início, pensei que não fosse nada, que talvez estivesse a imaginar coisas.
Mas, depois de algumas semanas, já não conseguia ignorar isso.
Comecei a sentir-me desconfortável.
Era por minha causa?
Eu parecia estranha?
Eu estava a fazer algo errado?
No final, decidi que precisava de falar com a Mia.
A tensão acumulou-se durante semanas e eu não conseguia mais suportar aquele sentimento de desconforto.
Depois do jantar, uma noite, enquanto lavava a louça na cozinha, tomei coragem e decidi abordar o assunto.
— Mia, posso perguntar uma coisa? — disse eu, tentando manter um tom calmo.
— Claro, diga — respondeu ela, limpando a bancada, sem olhar para mim.
— Eu queria falar contigo sobre uma coisa… É sobre o Alex. Reparei que ele fica a olhar para mim durante o jantar. Estou a começar a sentir-me desconfortável.
Tu também reparaste nisso?

Mia ficou imóvel, com a mão parada sobre a bancada, e por um momento não disse nada.
Eu percebi que ela estava a pensar rapidamente.
— Fico feliz que finalmente tenhas falado sobre isso — disse ela, virando-se para mim.
— Eu também notei isso e estava a pensar quando é que irias falar sobre isso.
— A sério? — perguntei, chocada.
— Então sabes do que estou a falar?
Mia suspirou e a sua expressão mudou.
— Sim, sei. Mas não quis dizer-te para não te colocar numa situação embaraçosa.
— Mas, para ser sincera… Acho que sei por que ele se comporta assim.
Senti meu estômago apertar.
— Por quê? O que aconteceu?
Mia respirou fundo e disse, com uma expressão de desapontamento:
— É por causa da maneira como te vestes.
Olhei para ela, perplexa.
— O quê? Como eu me visto? Do que você está a falar?
— Olha, sinto muito ter que te dizer isso, mas é verdade — ela continuou, com voz suave, mas firme.
— O Alex sempre teve… uma certa atração por ti.

— E ultimamente isso piorou.
— A maneira como te vestes quando vens aqui — camisetas justas, saias, o teu penteado.
— Isso o deixa louco, e eu vejo isso nos olhos dele toda vez que entras na sala.
Senti o meu rosto corar de choque.
— A sério? Estás a dizer-me que ele me olha fixamente por causa da minha roupa?
Mia acenou com a cabeça, com uma expressão que demonstrava culpa e compreensão.
— Eu nem queria admitir isso para mim mesmo, mas é verdade.
— E eu tentei encontrar uma solução sem causar confusão na família.
— Mas a forma como ele olha para ti… não é normal.
Os meus pensamentos ficaram confusos.
Eu sentia uma mistura de raiva e perplexidade.
Como Alex, o marido da minha irmã, podia se comportar assim comigo?
E como Mia podia simplesmente sentar e me dizer que o problema era a minha roupa?
— Não sei o que dizer — murmurei.
— Eu não fazia a menor ideia.
— Eu achava que era só impressão minha.
— Quero dizer, eu tento me vestir bem para os jantares em família, mas nunca imaginei que isso seria interpretado dessa forma.
— Eu sei, e eu entendo você — disse Mia rapidamente.

— Mas a maneira como Alex olha para você… é mais do que apenas admiração passageira.
— Acho que isso o incomoda há algum tempo, e é difícil para ele se controlar.
— Eu gostaria que isso não acontecesse, mas é a realidade.
Sentei-me à mesa da cozinha e senti-me deprimida.
Era a última coisa que eu esperava.
O homem que eu sempre vi apenas como meu cunhado, que eu considerava um amigo, tinha sentimentos por mim.
E agora a minha irmã estava a dizer-me que tudo se devia às minhas roupas?
— Não sei o que fazer — sussurrei.
— Sinto que me estão a culpar por algo que eu nem sequer suspeitava.
— Devo parar de me vestir como quero?
Mia olhou para mim com simpatia.
— Não, não estou a culpar-te.
— Mas acho que deves estar ciente de como o teu comportamento o afeta.
— Se isso o deixa desconfortável ou o leva a ultrapassar os limites, talvez devas pensar no que vestes quando vens aqui.
— Não se trata de mudar a tua personalidade, mas de manter o equilíbrio na família.

Fiquei em silêncio por um momento, tentando entender tudo.
Será que eu sou realmente culpada pela forma como o Alex olha para mim?
Será que eu, sem querer, incentivei a atenção dele — apenas com as minhas roupas?
— Talvez eu deva conversar com ele — finalmente disse, insegura.
— Talvez ele pare se souber que me faz sentir desconfortável.
Mia acenou com a cabeça.
— Provavelmente é uma boa ideia.
Mas tenha cuidado, está bem?
Não quero que sinta que precisa de se vestir de forma diferente para alguém, mas também não quero que isso cause mais problemas na família.
Eu entendo — disse eu, com a voz trémula.
Não pensaria que fosse tão sério.
— Eu não pensaria que ele olhava para mim dessa forma.
— Isso parece… errado.
— Eu sei, e sinto muito que estejas a passar por isso — disse Mia, com uma expressão de culpa e preocupação.

— Mas vou apoiar qualquer decisão que tomares.
— Só espero que isso não destrua a nossa família.
Quando saí da casa da minha irmã naquela noite, senti uma profunda inquietação.
A situação era mais complicada do que eu jamais poderia imaginar, e agora eu precisava encontrar uma maneira de lidar com isso sem destruir o meu relacionamento com a minha irmã e a sua família.
Não sabia o que o futuro me reservava, mas sabia que nada voltaria a ser como antes.
