Sentou-se novamente e passou a observar cada expressão no rosto de Anatólio. Para não despertar suspeitas, bocejou de forma exagerada.
— Acho que vou me deitar um pouco no sofá… Estou sentindo aquele sono estranho outra vez.
— Claro, claro… Vá descansar. Não precisa insistir em ficar acordada — respondeu ele com uma delicadeza quase exagerada, chegando até a acompanhá-la até a sala.
Tamara deitou-se no sofá, fechou os olhos e, pouco depois, começou a respirar de maneira lenta e regular, fingindo estar profundamente adormecida.
A espera pareceu interminável. Quase uma hora se passou antes que Anatólio finalmente se levantasse da poltrona. Caminhou lentamente até o sofá e permaneceu alguns instantes observando o rosto da esposa, certificando-se de que ela realmente estava inconsciente.
Convencido de que ela dormia profundamente, colocou a mão dentro do bolso interno do paletó e retirou… uma pequena carteira. Dela, tirou um frasco minúsculo.
Pelas frestas das pálpebras semicerradas, Tamara conseguiu enxergar perfeitamente o rótulo. As mesmas letras em latim. Exatamente as mesmas que apareciam no pedaço da embalagem encontrado naquela manhã.
Anatólio abriu o frasco e despejou várias cápsulas sobre a palma da mão. Não eram uma ou duas. Havia cápsulas demais — muito além da quantidade que qualquer pessoa consideraria uma dose normal.
Então, em voz quase inaudível, ele sussurrou:
— Aguente só mais um pouco, Toma… Falta muito pouco agora. Em breve… você nunca mais vai acordar.
Ele se inclinou sobre ela, pronto para forçar delicadamente seus lábios e despejar o conteúdo das cápsulas em sua boca. Mas, naquele exato instante, Tamara abriu os olhos e se sentou bruscamente no sofá.
Anatólio congelou no lugar. Durante um breve segundo, o medo estampou seu rosto. Logo depois, porém, sua expressão mudou completamente. O homem que ela conhecia havia desaparecido, dando lugar a alguém frio, duro e assustadoramente desconhecido.
— O que você está fazendo? — perguntou Tamara. Sua voz tremia, mas havia uma firmeza que ela própria nunca imaginou possuir.
— V-você… não estava dormindo? — murmurou ele, dando um passo para trás.
— Eu fiz uma pergunta. Por que você vem colocando sonífero escondido na minha bebida? E por que passa as noites andando pela casa enquanto eu estou desacordada?
Anatólio permaneceu em silêncio.
O único som que preenchia a sala era o zumbido baixo da geladeira.
Depois de alguns longos segundos, ele soltou um suspiro pesado, como alguém que finalmente desistia de esconder um segredo impossível de carregar por mais tempo.
— Você queria saber a verdade? — disse, com uma voz tão fria que Tamara mal a reconheceu. — Então escute. Nós não temos mais nada. Perdi absolutamente tudo… faz seis meses. Apostei dinheiro, fiz dívidas e destruí a nossa vida. O apartamento está hipotecado, os empréstimos me sufocam e não existe saída.
Ele fez uma breve pausa antes de continuar.
— Só havia uma única maneira de resolver tudo… o seguro de vida que está em seu nome. Um acidente. Ou uma overdose de sonífero em uma mulher que sofria de insônia havia tanto tempo. Ninguém desconfiaria de nada.
Tamara recuou lentamente até encostar na parede. Sentia as pernas fraquejarem.
— Você… queria me matar?
Anatólio abaixou a cabeça por um instante.
— Não de uma vez. Primeiro era preciso fazer você se acostumar. Depois eu aumentaria a dose aos poucos. Quando chegasse o momento, pareceria algo completamente natural.
Seus olhos permaneceram frios enquanto acrescentava:
— O doutor Igor Viktorovich é um velho conhecido meu. Ele confirmaria que seu coração simplesmente não resistiu. Tudo seria encerrado como uma morte sem qualquer suspeita.
O coração de Tamara disparou.
Sem tirar os olhos do marido, ela esticou discretamente a mão em direção ao criado-mudo onde normalmente deixava o celular.
Anatólio percebeu o movimento e avançou rapidamente.
Mas Tamara foi mais rápida.
Em vez do telefone, puxou debaixo da almofada do sofá um spray de pimenta que havia escondido ali naquela mesma tarde, depois que todas as peças começaram a se encaixar.
Ela apontou o frasco diretamente para ele.
— Não dê mais um passo.
Sua voz saiu baixa, porém firme.
— A polícia já está a caminho.
Anatólio parou imediatamente.
Seu olhar percorreu a sala em busca de alguma saída. A raiva que antes dominava seu rosto havia desaparecido. Restava apenas um vazio profundo, misturado a uma expressão de derrota inevitável.
Naquele instante, a campainha tocou.
A pequena janela da sala continuava aberta e, no silêncio da noite, Tamara conseguiu ouvir passos ecoando pela escada do prédio, aproximando-se da porta do apartamento.
Ela não baixou o spray nem por um segundo.
Continuou olhando fixamente para o homem com quem dividira trinta anos de casamento, percebendo, pela primeira vez, que jamais conhecera de verdade a pessoa ao seu lado.
Foi então, sob a luz fraca da única luminária acesa, que compreendeu uma verdade assustadora:
Os monstros mais perigosos nem sempre surgem da escuridão.
Às vezes, eles preparam o seu chá todas as noites, sorriem com carinho, desejam que você durma bem… e esperam silenciosamente pelo dia em que você nunca mais abrirá os olhos.
