A primeira carta tinha data de três anos atrás. O papel parecia quase novo, como se tivesse sido lido repetidas vezes:
“Vitória,
Eu sei o que você fez.
Você achou que eu não perceberia o dinheiro sumindo? Que eu não olharia minhas contas? Mês após mês, vi pequenas quantias desaparecendo. No começo, pensei que fosse erro. Que minha própria filha não me roubava. Mas nós duas sabemos a verdade, não sabemos?
Seu vício em apostas precisa acabar. Você está destruindo a si mesma e esta família. Tentei te ajudar, entender, mas você continua mentindo para mim e levando cada vez mais. Lembra do Natal passado, quando jurou que tinha mudado? Quando chorou e prometeu buscar ajuda? Uma semana depois, mais cinco mil dólares tinham sumido.
Eu não escrevo para te condenar. Escrevo porque dói ver você se afundar.
Por favor, Vitória. Deixe que eu te ajude… de verdade, desta vez.
Mamãe”
Minhas mãos sacudiam enquanto eu lia carta após carta. Cada uma revelava um pedaço de uma história que eu desconhecia, desenhando um retrato de traição que me revirava por dentro.
As datas cobriam vários anos. O tom mudava de cuidado para raiva e depois para uma tristeza resignada.
Uma das cartas mencionava um jantar de família em que mamãe prometeu nunca mais jogar. Eu me lembrei daquela noite — ela parecia sincera, lágrimas no rosto, abraçando a vovó. Agora eu me perguntava se aquelas lágrimas eram reais ou só mais um teatro.
A última carta da minha avó fez meu corpo gelar:
“Vitória,
Você fez a sua escolha. Eu fiz a minha. Tudo o que tenho vai ficar com Esmeralda — a única pessoa que me amou de verdade, e não me usou como banco particular. Você pode achar que escapou disso, mas não escapou. A verdade sempre aparece.
Lembra de quando Esmeralda era pequena e você me acusava de ter preferidos? Dizia que eu a amava mais do que a você. A verdade é que eu amei vocês duas de formas diferentes, mas com a mesma intensidade. A diferença foi que ela me amou de volta sem condições, sem esperar nada em troca.
Eu ainda te amo. Sempre vou amar. Mas não posso confiar em você.
Mamãe”
Mal respirei ao abrir a última folha. Era uma carta da minha mãe para a vovó, datada de dois dias atrás, já depois da morte dela. A escrita era dura, cortante:
“Mãe,
Tá bom. Você venceu. Eu admito. Eu peguei o dinheiro. Eu precisava dele. Você nunca entendeu o que é sentir essa adrenalina, essa necessidade. Mas adivinha? Seu planinho esperto não vai funcionar. A Esmeralda me adora. Ela vai me dar tudo o que eu pedir — inclusive a herança dela. Porque ela me ama. Então, no fim, eu é que vou ganhar.
Talvez agora você pare de tentar controlar todo mundo do túmulo. Adeus.
Vitória”
Passei a noite inteira acordada. Andei pelo apartamento enquanto as lembranças se rearranjavam com um sentido novo.
Os presentes de Natal que sempre pareciam caros demais. As vezes em que minha mãe pedia para “usar” meu cartão de crédito por “emergência”. Todas aquelas conversas sobre as finanças da vovó, disfarçadas de cuidado de filha.
— Você falou com sua mãe sobre a procuração? — ela perguntara certa vez. — Você sabe como ela esquece as coisas.
— Ela parece bem — eu tinha respondido.
— Estou só pensando no futuro, querida. Precisamos proteger os bens dela.
Minha mãe, movida pela ganância, tinha traído a vovó… e agora a mim.
Quando amanheceu, meus olhos ardiam, mas a mente estava limpa. Liguei para ela, segurando a voz firme:
— Mãe? Podemos nos encontrar para um café? Tenho algo importante pra você.
— O que foi, querida? — A voz dela veio melosa. — Você está bem? Parece cansada.
— Estou bem. É sobre a vovó. Ela deixou um pacote pra você. Disse que eu devia entregar quando chegasse a hora certa.
— Oh! Parece exatamente o que eu estava esperando.
