— Ajuda você a ficar aqui. Ao meu lado. Na realidade que você pode suportar.
Lydia olhou bem para cima.
— E isso é o que você chama de realidade?
Egor se aproximou.
— Tem certeza de que se lembra de tudo corretamente?
Essas palavras tiveram um efeito estranho nela. Não como uma ameaça. Como um espinho em dúvida.
E isso acabou sendo o pior.
Porque Lydia de repente percebeu: ela não está apenas tentando revelar o segredo dele.
Ela começa a duvidar de si mesma.
E foi nesse momento que o seu antigo telefone tocou noutra sala, que ela não usava há muito tempo.
A tela piscou.
Nele apareceu um nome que ela considerou abandonado há muito tempo no passado.
Um nome da vida antes de Yegor.
Capítulo 4. Um chamado do passado e uma verdade que não podia ser enterrada
O telefone tocou persistentemente, cortando o silêncio do apartamento, como se alguém do lado de fora estivesse tentando romper uma parede que a própria Lydia não havia notado todos esses anos.
Ela não se mexeu.
Egor também.
Ambos olharam para a sala, onde a tela de um telefone antigo piscava na mesa.
— Resposta, — ele disse baixinho.
Não houve solicitação ou ordem direta nesta palavra. Mais como uma observação. Verificar.
Lydia deu um passo lentamente.
— Por que ele está aqui? — ela perguntou sem tirar os olhos da tela.
— Você mesmo o deixou, — respondeu Egor. — Depois de se mudar. Não te lembras?
Ela não se lembrava.
E este foi o primeiro golpe real.
O telefone ficou em silêncio, mas quase imediatamente tocou novamente. O nome na tela continuou a brilhar, como se exigisse que ele fosse finalmente reconhecido.
A Lydia pegou no telefone.
— Olá…
Pausa.
Então a voz de um homem, rouca e cuidadosa:
— Lídia… sou eu.
Ela fechou os olhos.
— Andrey? — ela exalou.
Egor inclinou ligeiramente a cabeça.
Ele ouviu.
Com muito cuidado.
— Tentei entrar em contato com você por vários meses, — disse Andrey. — Você acabou de desaparecer. Absolutamente. Lembras-te do que aconteceu antes de partires?
Lydia sentiu que o chão sob seus pés parecia ter se tornado macio e pouco confiável.
— I… Eu me casei, — ela disse incerta.
Pausa novamente.
E então Andrei pronunciou uma frase, após a qual o velho mundo finalmente quebrou:
— Lydia… você nunca se tornou oficialmente esposa dele.
Silêncio.
Tal silêncio nunca é comum.
Só acontece quando a realidade se rompe mesmo diante dos nossos olhos.
Lydia virou bruscamente em direção a Yegor.
— O que ele disse agora?
Egor não parecia surpreso.
Ele parecia quase cansado.
— Você está cansado, — ele disse calmamente. — Você está confundindo os acontecimentos novamente.
Lydia apertou o telefone com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
— Ele diz que não somos casados.
Egor lentamente se aproximou.
— O que é verdade para você agora, Lydia? Documentos? A voz de outra pessoa ao telefone? Sucata de memórias? Ou seis anos a viver ao meu lado?
Essas palavras batem mais forte do que qualquer confissão.
Andrey continuou a falar ao telefone:
— Lydia, você desapareceu após o tratamento. Depois daquela clínica… você parou de atender todo mundo. Nós pensamos…
Egor estendeu bruscamente a mão.
— Dê-me o telefone.
Mas Lydia recuou pela primeira vez.
— Não venha.
Sua voz tremia, mas já havia aparecido nela uma força que não existia antes.
E então ela notou algo que ela não tinha prestado atenção antes: havia uma marca fina em seu pulso, semelhante a uma marca antiga de uma pulseira médica. Mal perceptível. Quase desapareceram.
Ela perdeu o fôlego.
— O que você fez comigo? — ela sussurrou.
Egor parou.
E pela primeira vez em todos esses anos, seu rosto ficou absolutamente aberto.
— eu salvei você, Lydia.
Pausa.
— De mim mesmo.
O telefone em sua mão ainda transmitia a voz de Andrei, mas parecia distante, como se viesse de outra vida.
Lydia olhou para a cozinha. Para caixas com datas. Para um copo de camomila. Em Yegor, que estava entre ela e seu passado, como um vigia em uma porta trancada.
E pela primeira vez ela percebeu:
a pior pergunta não é o que ele fez com ela.
A pior pergunta é —, de qual delas ela ainda consegue se lembrar.
FINAL
