Meu padrasto me espancava todos os dias como se aquilo fosse uma diversão para ele. Certo dia, ele quebrou meu braço e, quando me levaram ao hospital, minha mãe disse: “Ela caiu da escada sem querer.” Mas, assim que o médico viu os hematomas no meu rosto, ele chamou imediatamente a emergência.

CAPÍTULO 1: A RACHADURA NA NOITE CHUVOSA

A casa no fim da Rua Elm era uma obra-prima de camuflagem suburbana. Por fora, exibia um gramado impecável, uma cerca branca recém-pintada e um balanço na varanda que se movia suavemente com a brisa. Mas naquela terça-feira específica, enquanto uma tempestade torrencial castigava o telhado e o vento arranhava as vidraças como unhas desesperadas, a casa parecia respirar com uma vida própria, sufocante e maligna.

Mara, de dezesseis anos, estava diante da pia da cozinha, com as mãos mergulhadas em água morna e ensaboada. Lavava um prato de cerâmica, fazendo movimentos lentos, metódicos e cuidadosamente calculados para não produzir o menor ruído. Naquela casa, barulho era uma moeda que só comprava dor.

O ar da cozinha estava denso, pesado com o cheiro nauseante e persistente de carne assada queimada, misturado ao golpe ácido e cortante de uísque barato. O uísque significava que Victor estava em casa.

Victor Hale, o homem que exigia ser chamado de “chefe da família”, estava sentado à mesa de jantar, a poucos metros de distância. Era um homem largo, de ombros fortes, com quarenta anos, empreiteiro cuja construtora vinha perdendo dinheiro e contratos mais rápido do que ele conseguia beber. Ele media sua masculinidade pelo peso da própria carteira e, ultimamente, sua carteira estava humilhantemente leve. Lá fora, no mundo real, Victor era um fracasso, um homem pequeno encolhendo sob o peso da própria incompetência.

Mas, dentro daquelas paredes, ele era um deus. E um deus exigia sacrifícios.

Mara manteve os olhos fixos na água com espuma. Ela sentia o olhar dele queimando suas costas, pesado e predatório. Conhecia aquele ciclo intimamente. O contrato perdido, o jantar silencioso, o derramar pesado do líquido âmbar no copo de cristal. Ele procurava uma válvula de escape, um modo de despejar sua humilhação social na agonia física de outra pessoa. Para Victor, Mara não era uma enteada; era um saco de pancadas, sua forma mais barata e confiável de entretenimento.

O arrastar das pernas da cadeira de madeira contra o piso de linóleo ecoou como um tiro.

A respiração de Mara ficou presa na garganta. Ela não se virou. Enxaguou o prato, os nós dos dedos ficando brancos.

“Você deixou uma mancha”, uma voz rouca e grossa sussurrou bem ao lado de seu ouvido. O fedor de álcool fermentado e tabaco velho passou por ela.

Mara manteve a cabeça baixa. “Eu lavo de novo”, disse baixinho, com a voz sem qualquer inflexão. Emoção era sangue na água.

“Eu não quero que você lave de novo. Quero que faça certo da primeira vez”, Victor sibilou.

Antes que Mara pudesse sequer perceber a mudança no peso do corpo dele, a mão grande e calejada veio com violência. O tapa de mão aberta atingiu o lado do rosto dela com a força de um tijolo balançando no ar. O impacto lançou um clarão branco e cegante diante dos olhos de Mara. Sua cabeça virou brutalmente para o lado, e seu quadril bateu contra a borda do balcão de granito. O prato de cerâmica escorregou de suas mãos molhadas e se quebrou em uma dúzia de pedaços irregulares dentro da pia de aço inoxidável.

Um gosto quente e metálico inundou imediatamente sua boca. A parte interna de sua bochecha havia se aberto.

Victor soltou uma risada baixa e rouca, tomando um gole do copo que segurava com a mão esquerda. “Ainda de pé, hein? Está ficando mais resistente, garota. Talvez resistente demais.”

“Victor. Por favor. Já chega.”

A voz veio da entrada da cozinha. Elaine, a mãe biológica de Mara, estava ali parada, segurando com força as lapelas de seu roupão felpudo rosa contra o peito. Parecia uma coelha apavorada, os olhos saltando nervosamente para as janelas, aterrorizada com a possibilidade de os vizinhos enxergarem através das persianas.

Elaine não avançou. Não se colocou entre o monstro e a filha. Sua intervenção não nasceu de instinto materno nem de fúria protetora; nasceu de um desejo patético e covarde de manter a ilusão de sua vida suburbana perfeita. Ela era uma cúmplice usando a máscara de vítima, uma mulher que assistiria de bom grado a própria filha ser desmontada pedaço por pedaço se isso significasse não encarar a realidade terrível do homem com quem havia se casado.

Victor virou lentamente a cabeça na direção da esposa, os olhos se estreitando em fendas escuras e venenosas. “Como é, Elaine? Você está me dizendo como disciplinar a minha própria casa?”

“Não”, Elaine gaguejou, recuando para as sombras do corredor. “Não, Victor. Só… já está tarde. O barulho. Os Hendersons, ao lado…”

A menção aos vizinhos, a sugestão de que ele pudesse ser julgado pelo mundo exterior, foi a coisa errada a dizer. Foi uma faísca jogada sobre gasolina.

O rosto de Victor se distorceu em uma máscara feia e selvagem de pura raiva. Ele voltou sua atenção para Mara. “Ela acha que estou fazendo barulho demais”, rosnou. “Ela acha que estou sendo injusto.”

Ele avançou.