Todas as suspeitas.
Toda a desconfiança.
Virou pó.
Lembrou-se das vezes em que seguiu a esposa.
Das mentiras que acreditou enxergar.
Dos planos de instalar câmeras escondidas pela casa.
E ali estava ela.
Exausta.
Mais magra.
Com olheiras profundas.
Sacrificando-se para salvar alguém que um dia salvara sua própria vida.
— Quem fez isso com você? — perguntou a Kuleshov.
O homem fechou os olhos por um instante.
— Um caso antigo. Muito antigo.
Respirou fundo.
— Resolvi falar sobre um assassinato encomendado que foi encoberto décadas atrás. As pessoas envolvidas continuam poderosas. Quando souberam que eu estava disposto a testemunhar, começaram a me caçar.
Ele apontou para a própria ferida.
— Conseguiram me atingir. Escapei por milagre.
Depois sorriu sem humor.
— Liguei para Svetlana. Não sei por quê. Talvez porque sempre confiei apenas em vocês dois.
Svetlana abriu uma caixa antiga.
Retirou algumas fotografias.
Numa delas, dois jovens policiais sorriam usando uniforme.
Alexander e Grigory.

Ainda sem imaginar o que a vida lhes reservaria.
— Ele não é um estranho, Sasha — disse ela. — Ele é um dos seus. Você apenas o enterrou nas lembranças.
O silêncio tomou conta do apartamento.
Do lado de fora, a água do degelo pingava dos telhados.
Alexander observou a esposa durante longos segundos.
Percebeu o quanto ela mudara.
O quanto sofrera.
E como ele estivera cego.
Por fim perguntou:
— Quanto tempo temos?
Kuleshov respondeu imediatamente.
— Dois dias. Talvez menos.
Depois apontou para a rua.
— O carro preto é uma distração. Enquanto observam o veículo, acreditam que estou seguro. Mas logo perceberão a verdade.
Nesse instante algo despertou dentro de Alexander.
O velho investigador retornou.
O homem que criminosos temiam.
O policial que nunca recuava.
Ele examinou rapidamente os documentos.
Organizou mentalmente as informações.
E declarou:
— Existe uma saída.
Os dois o encararam.
— Conheço pessoas honestas na promotoria. Se transformarmos você em testemunha oficial e entregarmos tudo pelas vias corretas, ficará muito mais difícil eliminá-lo.
— E se você também se tornar alvo? — perguntou Svetlana.
Alexander olhou para ela.
Pela primeira vez naquela noite segurou sua mão.

— Já tentaram me destruir antes.
Seu olhar permaneceu fixo nela.
— Mas hoje fui eu quem quase destruiu algo importante.
Ela baixou os olhos.
— Eu estava prestes a instalar câmeras para vigiar você.
A voz dele falhou.
— Achei que nada pudesse ser pior do que descobrir a verdade. E descobri que eu sequer entendia o que estava acontecendo.
Svetlana cobriu o rosto com as mãos.
Kuleshov virou-se para a janela.
Mas não havia tempo para emoções.
Durante toda a madrugada trabalharam sem parar.
Alexander ativou antigos contatos.
Reconstruiu conexões.
Planejou cada detalhe para evitar vazamentos.

Svetlana reuniu documentos, remédios e provas.
Kuleshov preparou seu depoimento.
Ao amanhecer, o apartamento já não cheirava a suspeitas.
Cheirava a chá forte.
Torta de cereja.
Roupa limpa.
Cheirava a lar.
Pouco depois, um carro discreto estacionou diante do prédio.
Dele desceu um homem usando roupas civis.
Era o vice-promotor regional.
Anos atrás, ainda jovem, havia sido treinado pelo próprio Rodin.
Alexander abriu a porta.
Vestia uma camisa impecavelmente passada.
Sapatos engraxados.
Uma pasta sob o braço.
— Entre, Evgeny Sergeyevich — disse calmamente. — A testemunha que procura está pronta para falar.
O visitante entrou.
Imediatamente percebeu que, naquela casa, uma decisão capaz de mudar destinos havia sido tomada durante a noite.
Na sala, Kuleshov estava barbeado e usando uma camisa limpa.
Os documentos encontravam-se organizados em pilhas perfeitas.
Canecas de chá fumegavam sobre a mesa.
Svetlana permanecia junto à janela.
A luz suave do sol de março iluminava seus cabelos, agora mais grisalhos do que ela gostava de admitir.
Alexander aproximou-se dos papéis.
Pousou a mão sobre eles.
E falou com firmeza:
— Pode começar. Agora temos aquilo que mais importa.
Fez uma breve pausa.
— Temos tempo. E temos a verdade.
Naquele exato momento, do lado de fora, o carro preto arrancou bruscamente e desapareceu na esquina, como se compreendesse que a partida havia terminado.
E naquele apartamento comum de Riazã, onde até pouco tempo reinavam dúvidas e suspeitas, nascia uma história completamente diferente.
Não era uma história sobre traição.
Era uma história sobre lealdade.
Não era uma história sobre engano.
Era uma história sobre dever.
E sobre como, às vezes, os medos mais terríveis surgem justamente nos lugares onde habita o amor mais profundo.
