Encontrei um roupão de renda escondido no armário do meu marido — e depois vi-o na minha madrasta

Quando Calla encontra um roupão de renda escondido no armário do marido, pensa que se trata de uma surpresa romântica. Mas o seu mundo desaba quando vê o roupão na sua madrasta, Larisa. As suspeitas aumentam, a tensão cresce e, um dia, Calla ouve por acaso o verdadeiro plano traiçoeiro de Larisa…

Quando o meu pai faleceu no ano passado, parecia que a casa tinha perdido a alma. Ele próprio construiu esta casa de dois andares — espaçosa, sempre com cheiro a pinheiro e tinta fresca.

Após a sua morte, eu, o meu marido Alexei e a nossa filha de seis anos, Emma, mudámo-nos para lá para ajudar a minha madrasta, Larisa.

Ela e o meu pai estiveram casados durante cinco anos, mas Larisa lembrava a todos que tinha sido ela o seu «apoio» nos últimos dias.

— Não vais negar isso, querida — disse-me ela depois do seu discurso no funeral. — A sério, Kalla, se eu tivesse ido para a Tailândia naquela altura, o teu pai teria morrido sozinho. Completamente sozinho. Pobrezinho.

Viver com ela era como andar numa corda bamba. Em Larisa, tudo era afiado — os saltos, as palavras, até mesmo os olhares que ela lançava para o Alexei, pensando que eu não reparava.

Mas família é família, e eu tentava manter a paz.

Até encontrar o roupão.

Tudo começou de forma inocente. Eu estava apenas a arrumar as coisas do Alexei — já o tinha feito mil vezes. Abri o armário para pendurar uma camisa e, de repente, reparei em algo que se destacava da ordem habitual.

Um saco de presente brilhante estava meio escondido atrás dos casacos.

A curiosidade falou mais alto. Tirei-a de lá, com o coração a bater mais depressa. Dentro dela, um roupão de renda transparente.

O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi: o Alexei comprou-o para mim. Faltava muito pouco para o Natal e, embora ele não seja propriamente romântico, talvez quisesse fazer-me uma surpresa.

Até sorri: bem, quem diria, saiu da sua zona de conforto.

Pena que eu me enganei.

Dois dias depois, a Larisa chamou-me para ir a casa dela. A voz dela era enjoativamente doce — isso sempre me dava um nó no estômago. Depois da morte do pai, ela transformou o quarto deles em algo… aveludado e bordô, luxuoso e, ao mesmo tempo, estranhamente sensual. Eu nem sabia como descrever aquilo.

— Oh, Kalla, querida — arrulhou ela. — Não vais acreditar no que o meu novo homem me ofereceu!

Um novo homem? Ela nunca tinha falado nisso antes.

Quando entrei, as minhas pernas tremeram.

Ela estava em frente ao espelho com aquele mesmo roupão. O roupão da MЁM. Aquele que eu encontrei no armário do Alexei. Ela rodopiava, e a renda envolvia-a suavemente, como uma provocação.

— Gostas? — cantarolou ela, sorrindo. — Ele tem um gosto excelente, não é? E com uns sapatinhos de salto alto — vai ser pura magia.

Eu não conseguia respirar. Na minha cabeça, a uma velocidade louca, formava-se uma imagem que eu não queria ver.

Alexei?.. Não pode ser. E a Larisa?..

Não. Não pode. Ou?.. Será que pode?

— Onde… onde é que foste buscar isto? — sussurrei.

O sorriso da Larisa só se tornou mais largo.

— Eu já disse — foi um presente do meu homem. Tu não me estás a ouvir, Kalla! Mas não faz mal, talvez um dia alguém te ofereça algo… Ele, aliás, é muito… discreto.

Senti as pernas a cederem. Em teoria, poderia até fazer sentido. Mas tudo estava tão errado. Saí do quarto dela, mas o seu riso continuou a ressoar nos meus ouvidos durante muito tempo.

Naquela mesma noite, decidi falar com o Alexei. Deitámos a Emma — ela adormeceu rapidamente, ansiosa pelo dia de amanhã na escola: tinham de ir vestidos com os fatos dos seus heróis favoritos. Ela escolheu a Princesa Belle.

As minhas mãos tremiam.

— Alexei, — comecei, com a voz trémula. — Preciso de te fazer uma pergunta. Só te peço uma coisa: sê sincero.

Ele desviou o olhar da televisão, com um ar perplexo:

— O que se passa, querida? Espera só, vou pôr em pausa.

— Tu… tu ofereceste um roupão à Larisa? Aquele de renda que eu encontrei no teu armário?

O Alexei empalideceu.

— O quê? Mas estás louca! De onde tiraste isso?

— Ela mostrou-mo antes do jantar. Era mesmo esse. Eu própria o vi no teu armário!

Ele abriu a boca, os olhos arregalaram-se:

— Achas mesmo que eu lhe poderia ter oferecido uma coisa dessas? A sério?

— Então como é que ele foi parar lá?

— Não sei! — ele passou a mão pelo cabelo. — Não sei o que dizer…

— Não compreendo — sussurrei.

Ele parecia sinceramente perturbado.

— Juro que não lhe dei nada! A única coisa que lhe dei hoje foi um pedaço de pão com alho ao jantar!

Nos dias seguintes, não consegui livrar-me da ansiedade. Os sorrisos da Larisa, o silêncio confiante do Alexei — tudo parecia fazer parte de um quebra-cabeças que eu desconhecia.

Até que, um dia, ouvi a Larisa a falar ao telefone.

— Sim, Kira, claro, eu arranjei tudo — sussurrou ela. — Aquele idiota nem sequer percebeu. Mais um pouco e eles vão começar a dar-se de garras. Quando forem embora, a casa será finalmente minha. Tenho a certeza: foi precisamente por isso que se mudaram para cá. Querem tirar-me a casa.

Senti um arrepio na espinha. Ela tinha tudo planeado. O roupão era uma armadilha. Ela queria que eu pensasse que o Alexei a estava a trair. Tudo para nos expulsar da casa do meu pai.

Naquela mesma noite, contei tudo ao Alexei. Ele apertou a lata de cerveja até estalar, derramando o que restava no chão.

— Ela quer destruir o nosso casamento — disse ele entre dentes. — Foi para isso que nos mudámos para cá? Não, chega.

Elaborámos um plano.

De manhã, ao pequeno-almoço, mencionei de passagem que eu e o Alexei estávamos a pensar em sair de casa. A Larisa ficou radiante, embora tentasse esconder isso por trás de uma máscara de compaixão.

— Bem, se acham que assim será melhor…

À noite, convidámos um amigo advogado para jantar. A Larisa não o conhecia e dissemos que ele era um agente imobiliário que nos estava a ajudar a procurar uma nova casa. À mesa, a Larisa não parava de falar de como gostava de viver sozinha.

— Já não sou jovem — dizia ela. — Preciso de espaço. E vocês também precisam. E para a Emma, talvez um irmãozinho não fosse má ideia?

Eu não tinha a certeza se queria ficar nesta casa, mas o Alexei insistiu.

— Pensa nisso — disse ele. — Faz parte do legado do teu pai. Tu és a memória dele, sim. Mas foi ele próprio que construiu esta casa. Queres mesmo que a Larisa fique com ela?

— Não sei… Sinceramente, nem eu tenho a certeza.

Uma semana depois, organizámos uma «reunião de família». Larisa entrou, segura de si, como uma vencedora.

Alexei estendeu-lhe uma pasta com papéis.

— O que é isto agora? — perguntou ela, folheando as páginas.

— São os documentos da casa — respondeu ele calmamente. — Nós analisámos tudo. Afinal, os principais herdeiros somos eu e a Kalla. Tu não és dona desta casa, Larisa. É nossa.

O rosto de Larisa empalideceu.

— Isso é impossível. Kalla! O que é que fizeste? O teu pai nunca me teria deixado sem nada…

— Ele não deixou, — respondi eu. — Ele deixou-te bastante dinheiro. Mas a casa faz parte de mim. Claro que ele gostaria que ela ficasse comigo.

Ela quis contestar, mas o Alexei interrompeu-a:

— E antes que inventes mais uma intriga, fica a saber: nós não vamos para lado nenhum. Mas tu devias pensar em mudar-te.

— Ou talvez o teu «namorado» te acolha? — acrescentei calmamente.

Larisa engasgou-se, como se a língua lhe tivesse falhado.

— Que namorado?.. — perguntei. — Ele não existe, pois não?

— Eu inventei tudo isso! Eu armei tudo! Não há nenhum namorado, Kalla! E não há traição! Eu queria que pensasses que havia!

— Eu sei — respondi. — Eu ouvi tudo. Mas sabes, dou-te uma semana. Simplesmente porque foi isso que o meu pai teria feito.

— Eu vou mudar! Vou fazer tudo — cozinhar, arrumar a casa, ajudar a Emma! Só não me expulsem!

— Não quero que a minha filha esteja perto de ti — disse eu, simplesmente. — Desculpa, mas a decisão é minha.

Uma semana depois, a Larisa foi-se embora.

E eu finalmente encontrei paz na casa que o meu pai tanto amava. Transformei o quarto dela numa biblioteca para mim e a outra parte num espaço de brincadeiras para a Emma.

E o roupão?

Ela «esqueceu-se» dele. Entreguei-o a uma instituição de caridade, juntamente com o resto das coisas dela. Que vá para mais alguém. A mim, de certeza que não o vou ficar com ele.