Ele pediu o divórcio três dias antes do Ano Novo…

Sessenta e cinco mil dólares por ano talvez representassem apenas algumas viagens de negócios para Michael.

Mas para Kate…

Era o início da própria liberdade.

Ela guardou tudo novamente no lugar e pegou o celular para verificar as mensagens do grupo de estudos.

Havia ficado entre as melhores notas da turma no exame final do curso de certificação.

O professor inclusive lhe enviara uma mensagem particular perguntando se ela teria interesse em continuar os estudos para obter uma licença CPA de nível superior.

Kate respondeu apenas:

“Obrigada. Vou considerar.”

Depois desligou o telefone e se deitou.

Do lado de fora, os fogos de artifício já eram raros. Restavam apenas alguns estampidos isolados cortando a madrugada, como os últimos ecos de um casamento morrendo lentamente.

Ela fechou os olhos.

Imagens dos últimos três anos passaram por sua mente como um filme silencioso.

O choque ao descobrir a traição.

A dor.

O desespero de perceber que não tinha para onde ir.

A humilhação de fingir que acreditava nas mentiras dele.

Depois veio a mudança.

A calma.

O planejamento.

A disciplina de reconstruir a própria vida em segredo, passo a passo.

O pior já havia passado.

Agora faltavam apenas os movimentos finais.

No primeiro dia do ano, Michael só voltou para casa por volta das dez da noite.

Trazia no corpo um leve cheiro de álcool misturado com perfume feminino.

Kate estava sentada na sala lendo um livro.

Sem erguer os olhos, perguntou:

— Já jantou?

— Sim… tive um jantar com clientes. Não consegui escapar — respondeu ele, tentando soar natural.

Kate virou lentamente uma página do livro.

— As crianças já estão dormindo. Fale baixo.

Michael permaneceu parado no meio da sala observando o perfil tranquilo dela.

Uma sensação estranha começou a apertar seu peito.

Um desconforto que vinha crescendo desde o momento em que Kate assinara o divórcio sem resistência.

Nada havia acontecido como ele imaginara.

Ela não chorou.

Não implorou.

Não discutiu.

Não tentou negociar.

Kate parecia calma demais… como se soubesse que aquele dia chegaria.

Ou pior.

Como se estivesse esperando por ele.

— Kate… precisamos conversar — disse Michael finalmente.

Ela fechou o livro e o encarou.

— Conversar sobre o quê? O contrato já foi assinado. Ainda resta alguma coisa?

Michael escolheu cuidadosamente as palavras.

— Sobre você. Você realmente consegue aceitar tudo isso? O divórcio… e as crianças ficando comigo?

Kate levantou-se lentamente e caminhou até ele.

— E o que eu ganharia se não aceitasse? — perguntou com serenidade. — Chorar? Implorar para você voltar? Isso mudaria alguma coisa?

Michael não soube responder.

— Michael, nós ficamos casados por doze anos. Eu conheço você muito bem — continuou ela. — Quando toma uma decisão, nunca volta atrás. Então por que eu perderia minha dignidade tentando impedir algo inevitável?

As palavras faziam sentido.

Mesmo assim, Michael sentia que havia algo errado.

A mulher diante dele parecia racional demais.

Controlada demais.

Não lembrava em nada a esposa tímida, gentil e dependente que ele acreditava conhecer.

— Quanto às crianças — continuou Kate antes que ele falasse algo —, vamos fazer exatamente como combinamos. Contaremos depois das festas. Até lá, quero que continuemos aparentando harmonia diante delas.

— Claro. Eu prometo — respondeu Michael rapidamente.

Kate assentiu e caminhou em direção ao quarto.

Antes de entrar, porém, virou-se mais uma vez.

— Ah… e sobre seus pais, explique tudo você mesmo. Não quero ouvir comentários ou fofocas sobre mim.

— Não vai acontecer. Eu resolvo isso.

Ela entrou no quarto e fechou a porta.

Michael continuou parado na sala por muito tempo.

Pegou o celular no bolso e pensou em ligar para Jessica.

Mas desistiu.

Por algum motivo estranho, não queria fazer aquela ligação dentro da casa de Kate.

Naquela noite, no quarto de hóspedes, ele se virou na cama inúmeras vezes sem conseguir dormir.

Começou a lembrar das mudanças discretas que Kate apresentava nos últimos meses.

Ela passou a se maquiar com mais frequência.

Começou a se vestir melhor.

Inscreveu-se em cursos online.

Às vezes saía para jantar com amigas.

Na época, Michael achou aquilo positivo.

Pensou que era bom ela desenvolver interesses próprios para não depender tanto dele emocionalmente.

Agora, olhando para trás…

Tudo parecia calculado.

Planejado.

Mas ele rapidamente afastou o pensamento.

Kate jamais seria capaz de planejar um divórcio.

Ela era apenas uma dona de casa.

Como conseguiria sobreviver sem ele?

Definitivamente, ele devia estar exagerando.

No dia seguinte, como era tradição após o Ano-Novo, chegou o momento de visitar os próprios pais. Kate levou as crianças para a casa deles sozinha. Michael alegou que precisava resolver assuntos urgentes no escritório e ficou em casa.