Chamaram meu codinome pelo rádio… mas a voz do outro lado pertencia a alguém que eu enterrei anos atrás.

Morrison se inclinou para frente.

— O que é isso?

Olhei para os números.

E senti meu estômago afundar.

—

Aquilo não era um alvo.

Era uma posição.

Um ninho de sniper.

Elevação perfeita. Linha de visão limpa.

—

— Ele está entregando a própria localização — sussurrou Ross.

Kendrick murmurou com firmeza:

— É uma armadilha.

—

Balancei a cabeça devagar.

— Não.

Porque eu conhecia Ethan.

Ou pelo menos…

Conheia a versão dele que um dia treinou ao meu lado.

—

— Ele não monta armadilhas desse tipo — falei em voz baixa.

— Ele cria escolhas.

—

O rádio voltou a chiar.

— O tempo está correndo, Quinn — disse Ethan com calma. — Você sempre gostou de pressão.

—

Meus olhos deslizaram até o mapa.

Distância.

Ângulo.

Direção do vento.

—

Se enviássemos uma equipe…

Eles caminhariam direto para a linha de tiro dele.

A menos que…

—

— Ele quer que eu vá sozinho — declarei.

—

O silêncio atrás de mim pesou no ambiente.

Então Morrison falou, controlando cada palavra:

— Isso não vai acontecer.

—

Retirei o headset lentamente.

E me virei para encará-lo.

Pela primeira vez desde que tudo começou…

Minha tranquilidade não era apenas autocontrole.

Era uma decisão.

—

— Senhor — falei com firmeza — ele não vai parar.

— E você acha que entrar no alcance dele resolve isso?

— Não.

Respirei fundo.

— Isso termina com isso.

—

Kendrick negou com a cabeça.

— Você está falando de entrar no território de um fantasma que passou o dia eliminando equipes treinadas.

Sustentei o olhar dele sem hesitar.

— Não.

Minha voz saiu baixa, mas firme.

— Estou falando de ir ao encontro de alguém que ainda escolheu não me atingir.

—

Aquilo mudou o clima da sala.

Porque era verdade.

—

Cada disparo daquele dia…

Cada morte…

Tudo havia sido preciso.

Frio.

Calculado.

Perfeito.

—

Exceto por um detalhe.

Eu.

—

O rádio chiou mais uma vez.

Dessa vez, suave.

Quase paciente.

— Última chance, Phantom Seven.

—

Voltei os olhos para o mapa.

Para a coordenada marcada.

Para o passado que se recusava a permanecer enterrado.

—

E, pela primeira vez…

Eu sorri.

Não porque estivesse sem medo.

Mas porque finalmente compreendi o jogo.

—

— Você não deveria ter me chamado para isso, Ethan — sussurrei.

—

Então estendi a mão até meu rifle.

—

Porque o erro mais perigoso que um atirador pode cometer…

É acreditar que o único fantasma no campo de batalha

É ele mesmo.

—

No instante em que meus dedos tocaram a arma, a atmosfera mudou outra vez.

Não era pânico.

Nem resistência.

Era aceitação.

Porque todos naquela sala compreenderam algo sem precisar dizer em voz alta:

Aquilo já não era uma operação comum.

Era o confronto inevitável entre duas pessoas que conheciam a mente uma da outra.

—

— Cinco minutos — disse Morrison.

Olhei diretamente para ele.

— Você terá cinco minutos lá fora. Se algo sair do controle, nós tiramos você de lá.

Não discuti.

Não havia motivo.

Porque, no fundo…

Nós dois sabíamos que não existiria uma segunda oportunidade.

—

O ar do deserto atingiu meu rosto com um frio estranho, apesar do calor sufocante.

Engraçado como a adrenalina distorce tudo.

Os sons ficavam mais nítidos.

Os movimentos pareciam mais lentos.

E cada instinto…

Voltava à vida.

—

Avancei sozinho.

Sem equipe.

Sem cobertura.

Apenas distância, vento, terreno…

E memória.

—

Ethan sempre escolhia posições elevadas com múltiplas rotas de fuga.

Nunca uma única saída.

Nunca algo previsível.

Por isso, quando avistei a crista da colina…

Não fui diretamente até ela.

Dei a volta.

—

Três minutos.

—

O vento mudou.

Quase imperceptivelmente.

Mas o suficiente.

E foi então que senti aquilo.

—

A linha invisível.

Aquela que ninguém consegue enxergar…

Mas que você reconhece exatamente no instante em que a atravessa.

—

Alcance da mira.

—

Parei imediatamente.

Não me abaixei.

Não procurei cobertura.

Apenas permaneci imóvel.

—

— Bela entrada — a voz dele surgiu no comunicador.

Mais próxima agora.

Próxima demais.

—

— Você sempre gostou de criar cenas dramáticas — respondi calmamente.

Uma pausa.

Então—

— Você entrou exatamente onde eu queria.

—

Sorri de leve.

— Não — respondi calmamente. — Eu fui para o único lugar onde você acreditava que eu nunca pisaria.

—

Silêncio.

Mas não vazio.

Era calculado.

Pesado.

—

— Ainda pensando em ângulos — murmurou ele.

—

Então—

Um disparo.

—

O estampido cortou o deserto—

Mas não na minha direção.

—

Impacto.

Atrás de mim.

Uma pedra explodiu em fragmentos.

Poeira subiu pelo ar.

—

Um tiro de aviso.

—

Nem sequer pisquei.

Porque aquilo confirmou tudo.

—

Ele não queria me matar.