Nem de quanto tempo havia ficado distante de si mesma.
Então virou a cabeça.
E o viu.
Taylor estava sentado na cadeira ao lado da cama.
Os cotovelos apoiados nos joelhos.
O celular esquecido em uma das mãos.
A gravata desaparecera.
Os primeiros botões da camisa estavam abertos.
O cabelo parecia ter sido atravessado pelos próprios dedos dezenas de vezes.
Provavelmente era a primeira vez que Maya o via tão distante da imagem pública de Taylor King.
E tão próximo de simplesmente ser um homem.
Um homem esperando uma resposta da qual dependia mais do que gostaria de admitir.
Ele percebeu que ela havia acordado quase imediatamente.
— Oi.
A voz falhou ligeiramente naquela única palavra.
Maya engoliu em seco.
— Você está com uma aparência horrível.
Taylor soltou uma risada cansada.
— Você desmaia por uma noite e, de repente, eu deixo de ser fotogênico.
Ali estava.
O humor.
Aquela camada fina que ele utilizava sempre que a verdade chegava perto demais.
Maya fechou os olhos por um instante.
— Desculpa.
— Não.
A resposta saiu rápida demais.
Ele recostou-se.
Depois inclinou-se para frente novamente.
Incapaz de encontrar uma posição confortável.
— Só… não faça isso de novo.
Maya virou o rosto em direção à janela.
Do lado de fora havia apenas escuridão e seu reflexo apagado no vidro.
— Agora você sabe.
Taylor demorou a responder.
Quando finalmente falou, sua voz estava diferente.
Mais baixa.
Mais vulnerável do que ela jamais ouvira.
— A médica conversou comigo.
Ele observou as próprias mãos.
— Ela perguntou se eu já sabia da sua condição.
Maya esperou.
— Eu não sabia.
O silêncio se alongou.
Hospitais pareciam feitos para conversas difíceis.
O ar era seco demais.
As paredes devolviam cada palavra.
Ao longe, um carrinho metálico atravessou o corredor.
Um aviso soou pelo sistema interno.
A vida continuava acontecendo em outros lugares.
Indiferente.
Maya quebrou o silêncio.
— Eu não tinha obrigação de compartilhar meu histórico médico com você.
— Não.
Ele ergueu os olhos.
— Não tinha.
— Você se casou comigo por seis meses por causa de uma aposta estúpida entre amigos.
Algo mudou no rosto dele.
Ela viu a frase atingir o alvo.
— Eu sei exatamente o que fiz.
— Sabe mesmo?
Taylor levantou-se abruptamente.
Foi até a janela.
Voltou.
Movimento sempre o traía mais do que palavras.
— Eu sei que aceitei algo vergonhoso porque transformava tudo em competição. Eu estava entediado. Achava que precisava de um novo desafio para me sentir vivo. Sei que conheci você acreditando que seria simples. E também sei que essa ilusão desapareceu nos primeiros dez minutos. Sei que você passou os últimos três meses morando na minha casa enquanto eu fingia não perceber que havia algo errado, porque queria que você me contasse quando estivesse pronta.
Ele parou.
Inspirou profundamente.
— E também sei que hoje vi você cair no chão… e nunca senti tanto medo em toda a minha vida.
Maya encarou-o sob a luz fria do quarto.
Sentiu as lágrimas ameaçarem surgir.
Ela odiava chorar diante de homens.
Especialmente diante de homens que possuíam algum tipo de poder sobre ela.
Mas seus olhos ardiam.
— Eles dizem que é controlável — murmurou. — Essa é a palavra favorita de todos. Controlável. Como se eu fosse uma planilha de números.
Taylor voltou para a cadeira.
Desta vez sentou-se devagar.
— Me conta.
Ela soltou uma pequena risada amarga.
— Para quê? Para você me salvar?
Os músculos de sua mandíbula se contraíram.
— Por que toda pergunta minha parece um insulto para você?
— Porque homens como você só se interessam por alguma coisa quando ela se torna cara.
Ele absorveu o golpe sem reagir.
Sem se defender.
E isso tornou tudo ainda pior.
Maya afundou a cabeça no travesseiro.
— Fui diagnosticada há oito meses. Hipertensão grave. Início de doença cardíaca. Anos de sobrecarga. Excesso de peso. Estresse demais. Tempo demais fingindo que estava tudo bem. Me deram remédios. Disseram que, se eu mudasse completamente meu estilo de vida, poderia estabilizar o quadro. Talvez até reverter parte do problema.
Ela interrompeu a frase.
Taylor abriu lentamente a mão apoiada sobre a perna.
— E se não mudasse?
Maya encarou o teto.
— Talvez cinco anos. Talvez menos. Depende do médico. Depende do quanto ele está disposto a ser sincero naquele dia.
Taylor ficou em silêncio.
Um silêncio pesado.
Doloroso.
— Quer ouvir a verdade feia? — perguntou ela.
Ele assentiu.
— Eu tentei. Tentei de verdade. Comprei alimentos saudáveis. Contei calorias. Caminhei. Baixei aplicativos. Assisti mulheres na internet dizendo que o corpo é um templo enquanto eu esperava na fila da farmácia sentindo que o meu parecia uma casa hipotecada prestes a ser tomada pelo banco.
Taylor permaneceu imóvel.
Nem piscava.
