«Meu amor, vai demorar muito? Pedi o café da manhã no quarto. As suas panquecas com xarope de bordo já estão esfriando. Um beijo.»
Uma onda de náusea percorreu todo o seu corpo.
Na sua mente surgiu imediatamente o rosto dele naquela mesma manhã.
Calmo.
Carinhoso.
Aparentemente sincero.
O rosto de um homem que, segundo acabara de descobrir, simplesmente não possuía o passado que dizia ter.
— Tente manter a calma — a voz da funcionária chegava até ela como se viesse de muito longe, abafada, quase submersa. — Os agentes estão a caminho. Diga-me uma coisa: ele costuma carregar os documentos consigo?
— Sempre… — respondeu Yulia em um sussurro quase imperceptível. — O passaporte fica no bolso interno do paletó.
Foi ela mesma quem havia comprado aquele paletó para ele apenas uma semana antes do casamento.
De repente, ouviram passos firmes ecoando pelo corredor.
Yulia levantou os olhos em direção à porta, convencida de que finalmente veria os policiais entrando na sala.
Mas quem apareceu no vão da porta fez seu sangue gelar.
— Denis?… — conseguiu dizer com enorme esforço, enquanto sentia a sala girar lentamente ao seu redor.
Ele permanecia parado na entrada.
Continuava bonito.
Vestia exatamente a mesma camisa que ela havia passado cuidadosamente na véspera do registro do casamento.
Mas havia algo completamente diferente.
Seu olhar.
Não existia mais qualquer traço de carinho.
Nenhum sinal de ternura.
Somente uma expressão fria, calculista e profundamente cansada.
— Yulia… — disse ele com absoluta tranquilidade.
A voz também já não carregava a doçura à qual ela havia se acostumado durante aqueles dois anos.
— Você não faz ideia do quanto eu torci para que tudo isso nunca acontecesse.

Marina Viktorovna levantou-se bruscamente da cadeira e estendeu a mão em direção ao telefone, mas Denis deu um passo à frente antes que ela pudesse fazer qualquer ligação.
— Não é necessário — disse ele com absoluta calma. — Não vou machucar ninguém.
Em seguida, voltou o olhar para Yulia.
— Você não é minha esposa. Na verdade, nunca foi. Mas não corre nenhum perigo. Eu só precisava de um nome… de uma identidade limpa por alguns meses. Achei que conseguiria terminar tudo antes que o sistema atualizasse os registros.
— Quem é você? — perguntou Yulia com enorme dificuldade. Sua própria voz lhe pareceu estranha, como se pertencesse a outra pessoa.
Ele sorriu de leve, mas havia apenas cansaço e amargura naquele sorriso.
— É melhor que você nunca descubra. Se preferir, continue pensando que meu nome era Denis. Ou simplesmente não pense mais em mim. Esqueça tudo. Solicite a anulação do casamento com base no fato de ele ter sido celebrado por alguém que utilizou documentos falsificados. O procedimento deve levar apenas algumas semanas.
Ele fez uma breve pausa.
— Me perdoe…
Por um instante, seus olhos perderam aquela frieza.
Algo verdadeiro apareceu ali.
Algo profundamente humano.
— Perdoe-me, pelo menos, por esta manhã. Eu queria que, ao menos essas poucas horas… fossem reais.
Sem esperar qualquer resposta, virou-se e deixou a sala tão silenciosamente quanto havia entrado.
Menos de um minuto depois, dois policiais invadiram o gabinete.
As perguntas começaram imediatamente.
Anotações.
Mensagens pelo rádio.
Ordens rápidas.
Yulia escutava apenas palavras soltas:
— isolamento…
— estações…
— alerta de procura…
Mas tudo parecia distante.
Ela permanecia imóvel, olhando para o celular quebrado, cuja tela ainda exibia a mensagem sobre as panquecas com xarope de bordo.
Somente cerca de uma hora depois, quando terminou de prestar depoimento e já estava sentada em um banco diante do Cartório de Registro Civil, conseguiu compreender a dimensão do que havia acontecido.
Lembrou-se de Denis colocando a aliança em seu dedo no dia anterior.
Depois de beijar delicadamente sua mão, ele havia sussurrado:
«Eu nunca vou mentir para você.»
Também recordou o primeiro encontro.
Na pequena cafeteria onde, supostamente por acidente, ele derramara café sobre sua roupa.
Foi assim que tudo começou.
Ou, pelo menos, foi nisso que ela acreditou durante dois anos.
Lembrou-se ainda da facilidade impressionante com que ele havia entrado em sua vida.
Adaptava-se perfeitamente aos seus hábitos.
Conhecia seus gostos.
Antecipava suas reações.
Parecia saber tudo sobre ela antes mesmo que ela abrisse a boca.
Como se tivesse estudado cada detalhe muito antes de se aproximar.
Yulia ergueu lentamente os olhos para o céu cinzento da manhã.
Foi então que percebeu qual era a parte mais dolorosa de toda aquela história.
O pior não era descobrir que o homem com quem havia se casado era um criminoso escondido atrás da identidade de outra pessoa.
O mais devastador era perceber que, apesar de tudo…
…ela ainda não conseguia odiá-lo.
O telefone, que os funcionários haviam conseguido improvisadamente prender com fita adesiva, vibrou novamente.
