—Por que você está me dizendo isso agora? — ele espremeu com dificuldade.
Leila sorriu e apagou o cigarro na borda do apoio de braço.
—Porque estou morrendo, Artyom. Daqui a três meses EU vou-me embora. E EU quero entender: você vai aguentar essa dor? Você consegue olhar nos olhos das pessoas que sorriem para você à mesa e preparam uma faca nas costas? Você pode ser meu herdeiro não apenas por documentos, mas por sangue — pelo sangue que será derramado neste luxo de mármore brilhante?
Ela foi até ele em um carrinho e colocou a palma seca em sua bochecha.
—Você já passou pela dor da sua família. Através da humilhação. Através do desespero. Agora supere minha dor. E então você se tornará verdadeiramente rico. Não dinheiro. Pela força.
Artyom ficou em silêncio. Estradas noturnas zumbiam do lado de fora da janela, um avião estava decolando em algum lugar distante, tirando os destinos de outra pessoa. E ele estava sentado no quarto de uma velha viúva árabe e pela primeira vez em muitos anos de repente não sentiu medo. Apenas uma verdade afiada, quase cortante.
E percebeu: a dor desta noite foi o início de sua nova vida. Uma vida em que ele não será mais vítima. Vida, onde ele próprio decidirá qual o preço que está disposto a pagar pela sua escolha.
Ele pegou na mão dela e disse
— Eu vou ficar.
Leila sorriu e, pela primeira vez, algo parecido com o calor humano brilhou em seus olhos.
—Bem-vindo ao nosso inferno, cunhado, — ela disse baixinho. — Vou te ensinar a odiar tanto quanto eu os odeio. E amar como nunca souberam. Estás pronto?
Artyom engoliu, sentindo como sua vida anterior — aquela que permaneceu em uma pequena aldeia, entre dívidas, ansiedade e esperanças — estava lentamente se afastando dele, como uma crosta de uma ferida fresca.
— Pronto.
Ao amanhecer, os sobrinhos entraram na casa junto com todo um exército de advogados. Mas Leila já os esperava na sala principal, segurando a mão de Artyom. E pela primeira vez ele não abaixou os olhos. Ele olhou para eles com calma, quase frieza — com o próprio ódio que acabara de começar a compreender.
E no bolso da jaqueta estava a chave do cofre, onde estava guardado o testamento, reescrito naquela noite. Ele sabia que ainda havia muita dor pela frente. Mas agora ele estava pronto. Porque aos vinte e sete anos, casou-se com uma mulher de setenta anos para salvar a família.
E no final ela salvou ele — de si mesmo.
E na noite de núpcias ele estava com muita dor. Dói perceber que ele ainda está vivo. O que ele ainda é capaz de sentir. E por essa dor ele ficou grato a ela.
…Três meses depois, Leila morreu. Calma, num sonho, com um leve sorriso nos lábios. No funeral, Artyom ficou no caixão e olhou para seus sobrinhos, que não estavam mais tentando esconder seu ódio. Eles sussurraram que foi ele quem a levou à morte. Que ele acelerou a partida dela. Mas ele sabia a verdade.
A última carta que Leila deixou em sua mesa continha apenas algumas linhas:
«Você se tornou meu herdeiro, Artyom. Mas o principal que deixo para você é — não é dinheiro. Esta é a capacidade de escolher. Lembre-se: a riqueza é apenas uma ferramenta. Só a liberdade é verdadeiramente querida. E tu mereces. Ao vivo. Não tenha medo da dor. Ela —a professora mais honesta».
Artyom queimou a carta, saiu da mansão e entrou no carro. Ele não tinha intenção de voltar para Dubai. Ele comprou uma passagem só de ida — para uma pequena vila onde sua família o esperava. Ele não levou dinheiro apenas para casa. Ele estava carregando para si outro, experiente e real.
E quando o avião decolou para o céu, ele olhou pela janela para a cidade desaparecendo abaixo e sussurrou silenciosamente:
—Obrigado, Leila. Para a dor. Para toda a vida. Para escolha.
Fechou os olhos e sorriu. Pela primeira vez em muitos anos — de verdade.
O fim.
