Depois de alguns segundos encontrei uma notícia local publicada sete anos antes.
“Motorista fica gravemente ferido em acidente de veículo único que resultou na morte de uma passageira.”
Não havia fotos.
Nenhuma menção direta a Marina.
Mas os comentários chamaram minha atenção.
Uma frase ficou gravada na minha memória:
“Todo mundo sabia que ele tinha bebido. Ela implorou para que não dirigisse naquela noite.”
No dia seguinte encontrei Alice.
Ela parecia pelo menos dez anos mais velha do que eu. Tinha olhos gentis, rosto cansado e nenhuma maquiagem.
Sem rodeios, colocou uma pasta sobre a mesa.
— Tudo isso é público — disse calmamente. — Não invadi sistema algum. Só procurei onde ninguém mais procurou.
Dentro da pasta havia cópias do relatório policial, documentos relacionados à suspensão da habilitação de André e o obituário de Marina.
No resumo oficial do acidente, ela era identificada apenas como “passageira”.
Alice se inclinou para frente.
— Ela não era apenas uma passageira, Taís. Era minha irmã. Era esposa dele. E odiava dirigir à noite. Entrou naquele carro apenas porque André insistiu.
Senti meu estômago afundar.
— Ele me disse que ela perdeu o controle do veículo.
Alice soltou uma risada amarga.
— Claro que disse. André sempre teve talento para apagar as partes da história que o colocam em má posição.
— Por que ninguém falou antes?
A expressão dela se entristeceu.
— Porque o luto funciona como um escudo. E poucas pessoas têm coragem de atravessá-lo.
Naquele fim de semana fomos almoçar na casa da mãe de André.
O cheiro de alecrim e pão de alho preenchia o ambiente.
Tudo deveria parecer acolhedor.
Enquanto recolhíamos os pratos, a tia dele, Maia, lançou-me um olhar curioso.
— André já contou a verdade sobre Marina?
Meu marido ergueu a cabeça imediatamente.
— Do que você está falando?
— Sempre achei estranha a história da morte dela — continuou Maia. — Nunca acreditei completamente naquela versão.
A mãe de André permaneceu em silêncio, esfregando repetidamente um prato já limpo.
— Que versão? — perguntei.
Maia pousou o copo sobre a mesa.
— A versão de que Marina dirigia naquela noite. Afinal, sua carteira foi suspensa logo depois do acidente, não foi?
O silêncio tomou conta da sala.
Era como se todo o ar tivesse desaparecido.
— Chega — disse André, seco. — Não existe motivo para falar disso agora.
— Existe, sim — respondeu Maia. — Passei anos encobrindo você. Já basta.
Pouco depois fui ao banheiro de hóspedes.
Tranquei a porta.

Olhei para meu reflexo no espelho.
E pela primeira vez aceitei o que estava diante de mim.
Meu marido dirigia naquela noite.
E deixou o mundo acreditar em uma história que o protegia.
Na segunda-feira entrei em seu escritório e fechei a porta.
Ele digitava algo no computador sem sequer levantar os olhos.
— O que foi? — perguntou. — Espero que seja rápido. Estou ocupado.
Respirei fundo.
— Você estava dirigindo quando Marina morreu?
Ele congelou.
Por um instante abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
— Já falamos sobre isso.
— Não. Nunca falamos de verdade.
— Eu não gosto de revisitar aquele período da minha vida.
— O problema é justamente esse. Você fala sobre ele sem contar o que realmente aconteceu.
André levantou lentamente da cadeira.
— Você precisa parar com isso.
— Por quê?
— Porque não entende a complexidade daquela situação.
— Entendo que você permitiu que as pessoas acreditassem que Marina foi responsável pela própria morte.
Os olhos dele finalmente perderam a calma.
Mas não vi culpa.
Nem tristeza.
Vi medo.
O medo de alguém cuja narrativa estava desmoronando.
— Eu vivo com aquela noite todos os dias — disse ele.
— E Marina não teve essa escolha.
Ele desviou o olhar.
Foi nesse momento que compreendi tudo.
Passei o restante do dia organizando minhas coisas.
Dessa vez sem pânico.
Sem correria.
Sem lágrimas.
Apenas com uma clareza dolorosa.
Antes de sair, virei para baixo a fotografia do nosso casamento que ficava sobre a cômoda.
Minha aliança permaneceu ao lado da pia do banheiro.
Dirigi sem música.
Passei pelo supermercado onde fazíamos compras, pelo café favorito de André e pela casa de porta vermelha que ele dizia lembrá-lo da Itália.
Quando parei em um semáforo, procurei o contato de Alice.
Ela atendeu na primeira chamada.
E naquele instante senti as lágrimas finalmente chegarem.
— Posso ir até sua casa?
— Claro que pode — respondeu ela imediatamente. — Você nunca precisa pedir permissão para isso.
A casa de Alice era pequena, antiga e pintada de amarelo. A tinta descascava em vários pontos.
Mas o interior cheirava a canela e camomila.
Ela me abraçou na entrada e só me soltou quando percebeu que eu finalmente conseguia respirar novamente.
Sentamos na sala com canecas de chá fumegante entre nós.
