— Vamos juntos à delegacia — disse Arthur. — Prestamos depoimento. Registramos tudo. Depois atacamos de volta.
— Atacamos como?
— Fraude. Coação. Despejo ilegal. Manipulação documental. E qualquer outra acusação que eu consiga encaixar.
O sorriso dele surgiu rápido e cruel.
— Os Crawford acreditam que agressividade vai salvá-los. Não vai.
Marina apareceu na casa de hóspedes na noite de cinco de janeiro como uma rajada de fumaça de cigarro acompanhada de problemas.
Elena estava na cozinha alimentando Timmy quando ouviu a voz de Frank no corredor e outra voz mais afiada respondendo. Um instante depois, uma mulher surgiu na porta.
Talvez trinta e poucos anos. Cabelo curto. Jaqueta de couro. Jeans desbotados. O rosto tinha traços fortes que pareceriam severos se não fosse pela inteligência evidente nos olhos.
— Marina — apresentou Frank. — Investigadora particular.
Marina lançou um olhar rápido e avaliador para Elena.
— Essa é a garota?
— Marina.
O tom de Frank soou como um aviso.
— Tá bom, tá bom… hábito profissional.
Ela puxou uma cadeira e sentou-se diante de Elena.
— Meu antigo chefe na segurança corporativa costumava dizer que não dá para resolver sujeira fingindo que ela é perfume.
Marina apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Então, querida… encontrei sua Vera.

Os dedos de Elena apertaram automaticamente a mamadeira.
— E?
— E ela está muito interessada em conversar.
No dia seguinte, Vera apareceu.
Vera estava mais magra do que Elena se lembrava. Havia nela uma elegância cansada, desgastada por anos de decepção contínua. Um fio grisalho atravessava seus cabelos escuros, e seus olhos carregavam aquele olhar vazio e cauteloso de alguém que já chorou tanto no passado que agora economizava emoções como se fossem um recurso raro.
Ela sentou-se na poltrona diante de Elena, mantendo as mãos apertadas uma contra a outra sobre o colo, e permaneceu em silêncio por quase um minuto inteiro.
Então ergueu os olhos.
E começou a contar uma história tão parecida com a dela que Elena sentiu o estômago se revirar.
— Há três anos — disse Vera — eu estava grávida de sete meses. Derek apareceu dizendo que precisávamos atualizar alguns documentos relacionados aos impostos do imóvel. Questões técnicas. Ele falou que aquilo garantiria mais segurança para o bebê.
Ela soltou uma risada baixa e amarga.
Não havia qualquer humor nela.
— Eu assinei. Um mês depois ele me deixou por outra mulher… e o apartamento já estava no nome da Barbara.
Elena ouviu tudo sem conseguir se mover.
Vera continuou.
— Eu lutei durante três anos. Tribunal após tribunal. Recursos. Audiências. Barbara tinha conhecidos no fórum, contatos no serviço social, gente influente em todo lugar. Transformaram minha imagem em algo horrível. Diziam que eu era instável. Vingativa. Uma ex-esposa emocionalmente desequilibrada tentando destruir o pai do próprio filho.
As mãos dela finalmente se separaram.
Uma delas tremia.
— Eu vejo meu filho apenas uma vez por mês.
O silêncio tomou conta da sala.
Timmy se mexeu sonolento contra o peito de Elena, soltando um pequeno som que, de alguma forma, tornou toda aquela tristeza ainda pior.
Quando Vera voltou a olhar para Elena, havia algo devastado em sua expressão.
— Quando ouvi falar de você… pensei que talvez, se não fosse só comigo, alguém finalmente seria obrigado a escutar.
Arthur, sentado próximo à lareira com o caderno aberto, inclinou-se levemente para frente.
— Você está disposta a testemunhar?
— Sim.
— Sob juramento?
— Sim.
— E entregará todos os documentos do seu caso?
— Tudo o que ainda tenho.
Arthur assentiu lentamente.

— Dois casos quase idênticos. Mesmo padrão. Mesma família. Mesmo uso da gravidez e do parto como vulnerabilidade. Tribunais prestam atenção em padrões repetidos.
Vera voltou-se novamente para Elena.
— Sabe qual é a pior parte? Não foi perder o apartamento. Nem mesmo perder o processo. O pior foi amar aquele homem. Eu acreditava que estávamos construindo uma vida juntos. Achava que ele era meu lar.
Elena estendeu a mão lentamente e segurou a dela.
— Eu também — respondeu em voz baixa.
E pela primeira vez desde o início de tudo, Elena deixou de se sentir singularmente humilhada.
A dor continuava ali.
Mas a solidão havia diminuído.
Barbara ligou no dia dez de janeiro.
Elena acabara de colocar Timmy para dormir quando um número desconhecido apareceu na tela do celular. Ela atendeu por impulso.
— Elena, querida. Aqui é Barbara.
A doçura artificial na voz da mulher mais velha fez a pele dela se arrepiar imediatamente.
— O que você quer?
— Conversar. Como família. Sem advogados complicando tudo.
Elena permaneceu em silêncio.
Barbara continuou com aquele tom suave e venenoso.
