Ela mantinha os olhos fixos no nosso filho com uma intensidade que me apertou o peito. Havia orgulho em seu olhar. Um orgulho silencioso, brilhante, prestes a transbordar em lágrimas que ela se recusava a derramar.
Sob a luz suave daquela tarde, as marcas deixadas pela doença pareciam desaparecer por alguns instantes. Vi novamente a mulher por quem me apaixonei quarenta anos antes — forte, determinada, impossível de deter.
A mesma mulher que sempre acreditou que a família era o abrigo mais seguro contra qualquer crueldade do mundo.
Os votos foram rápidos.
Promessas foram repetidas diante dos microfones.
Os convidados aplaudiram.
Logo depois, garçons surgiram trazendo mais bandejas de champanhe.
A celebração então se deslocou para a recepção.
Grandes mesas redondas ocupavam a ampla varanda de madeira que se estendia sobre o Atlântico. O sol começava a desaparecer no horizonte, espalhando tons intensos de dourado líquido, laranja queimado e violeta profundo sobre o oceano.
Era o tipo de cenário capaz de convencer qualquer pessoa de que estava testemunhando um momento perfeito.
Mas meus olhos estavam treinados para enxergar aquilo que os outros ignoravam.
E eu conseguia ver claramente as rachaduras escondidas sob aquela fachada impecável.
Jennifer e seus familiares circulavam entre as mesas como membros da realeza visitando seus súditos.
Riam alto.
Cumprimentavam empresários influentes.
Conversavam com políticos locais.
Trocavam comentários sobre propriedades internacionais, investimentos milionários e temporadas de inverno nos Alpes.
Lucas caminhava junto deles.
Sempre um passo atrás.
Não parecia um homem feliz por compartilhar sua nova vida com os próprios pais.
Parecia alguém desesperado para ser aceito por um grupo seleto.
Um intruso tentando provar que merecia permanecer ali.
Pouquíssimas pessoas se aproximavam da nossa mesa.
Alguns convidados ofereciam sorrisos educados ao passar.
Outros faziam pequenos acenos.
Mas quase todos evitavam iniciar qualquer conversa com Mary.
Era como se sua doença tivesse se tornado algo contagioso.
Como se sua simples presença criasse desconforto.
A cada poucos minutos eu a observava levar a mão até a nuca.
Ela verificava discretamente a posição do lenço de seda e o encaixe da peruca.
Não porque houvesse algum problema.
Eu conhecia aquele gesto.
Era um reflexo involuntário que surgia quando o cansaço ultrapassava seus limites.
Quando seu corpo começava a perder a batalha contra a exaustão.
— Vou falar com Lucas — resmunguei, afastando a cadeira.
Mary imediatamente tocou meu pulso.
Seus dedos estavam frios.
— Arthur, por favor… não crie uma situação desconfortável para ele justamente hoje.
Aquilo era tão típico dela.
Sempre tentando proteger os outros.
Sempre absorvendo a dor para impedir que alguém mais sofresse.
Mesmo lutando contra uma doença devastadora, continuava preocupada com os sentimentos do filho.
— Vou ser rápido — prometi.
Levantei-me e atravessei o salão.
Desviei de mesas decoradas com flores caríssimas e grupos de convidados entretidos até localizar Lucas próximo ao bar principal.
Ele conversava com três padrinhos de Jennifer.
Todos jovens.
Todos impecavelmente vestidos.
Todos exibindo a confiança típica de quem nunca precisou enfrentar dificuldades reais.
Um deles contou uma piada.
O grupo explodiu em gargalhadas.
— Lucas.
Minha voz não foi alta.
Mas foi suficiente.
Ele se virou imediatamente.
— Pai.
Seu sorriso surgiu de forma artificial.
Os olhos revelavam nervosismo.
Percebi que não queria aquela conversa.
Aproximei-me.
— Sua mãe está exausta. Sente-se com ela por alguns minutos. Só isso. Faça companhia a ela.
Lucas desviou o olhar.
Fingiu observar um garçom que passava.
— Pai, não complique as coisas. Há pessoas importantes aqui. Preciso conversar com elas. Tenho responsabilidades.
Minha expressão endureceu.
— Sua mãe lhe deu a vida. Essa deveria ser sua maior responsabilidade.
Ele suspirou profundamente.
Um suspiro carregado de irritação.
Antes que respondesse, um dos padrinhos aproximou-se.
Era Preston.
Um sujeito cuja arrogância parecia maior do que sua inteligência.
Ele girava lentamente o copo de uísque enquanto sorria.
— Senhor Harrison… vi sua esposa do outro lado do salão. Ela parece muito bem, considerando tudo. Foi corajosa ao aparecer.
Outro rapaz soltou uma risada.
Depois inclinou-se ligeiramente para frente.
— Falando sinceramente, eu imaginava que ela ficaria em casa. Depois de tantas internações… a presença dela deixa o clima meio pesado, sabe?
Por um instante senti meu coração desacelerar.
Uma calma perigosa.
Conhecia aquela sensação.
Era a mesma que precedia situações extremamente graves.
Minhas mãos fecharam-se lentamente.
Esperei.
Esperei que Lucas reagisse.
Esperei que defendesse a própria mãe.
