— Você acordou ele… — murmurou.
— Não tem ninguém aí!
— Tem sim. — apertou ainda mais o vazio contra o peito. — Ele está aqui. Você é que se recusa a ver.
Senti o pânico tomar conta de mim.
— Você precisa parar com isso…
— Não! — gritou. — Você é que precisa ir embora!
Ela recuava, como se eu fosse uma ameaça real.
— Você quer nos separar… como os outros…
— Os outros quem?
Ela ficou em silêncio.
Tarde demais.
— De quem você está falando?
Um silêncio pesado caiu entre nós.
Então ela murmurou, quase inaudível:
— Aqueles que dizem que eu sou louca…
Um arrepio percorreu meu corpo.
— Quem?
Ela sorriu.
Um sorriso estranho, que eu nunca tinha visto antes.
— Você ainda não entendeu?
Não respondi.
— Não é o primeiro…
O mundo pareceu parar.

— O quê?
Ela abaixou o olhar para os próprios braços vazios.
— Eles sempre me tiram…
Senti um frio atravessar minha espinha.
— Quem?!
Ela levantou a cabeça.
E, pela primeira vez… disse a verdade.
— Eu.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
— Eu… eu não consegui mantê-los…
A voz dela tremia, quebrada.
— Então eu finjo que eles ainda estão aqui…
Eu comecei a recuar, tomado pelo horror.
— Você quer dizer que…
Ela assentiu, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu não aguento mais perdê-los… então eu simplesmente não perco mais.
Naquele instante, tudo fez sentido.
Finalmente.
Não era mentira.
Não era traição.
Era dor… transformada em loucura.
Ela nunca abandonou os filhos.
Ela apenas se recusava a aceitar que eles tinham partido.
No dia seguinte, tomei uma decisão.
Não aquela que o médico havia sugerido.
Eu não a abandonei.
Levei-a a um especialista.
Foi um processo longo.
Doloroso.
Ela resistiu.
Chegou a me odiar por um tempo.
Mas, aos poucos… começou a voltar.
A compreender.
A aceitar.
E um dia… ela chorou de verdade.

Não por um bebê imaginário.
Mas pelos filhos que realmente havia perdido.
Naquele dia… eu soube que ainda havia esperança.
Hoje, nada é perfeito.
Mas ela está melhor.
E eu… aprendi algo importante.
Às vezes, as pessoas não mentem.
Elas sofrem tanto… que acabam criando a própria realidade.
Então, antes de julgar, antes de virar as costas…
faça a si mesmo uma pergunta:
E se essa pessoa não fosse má… apenas estivesse quebrada por dentro?
E você… teria tido coragem de ficar? Ou teria ido embora?
