A época já estava a chegar ao fim.

Voltei-me para ele e sorri.

Foi então que percebi que o silêncio havia retornado ao meu interior.

Mas era um silêncio diferente.

Não aquele que surge após o descanso.

Era o silêncio que antecede algo prestes a acontecer.

Meu marido deixou a bolsa junto à parede e atravessou a cozinha sem nem terminar de tirar o casaco, como se quisesse confirmar que tudo permanecia exatamente onde deveria estar. Seus olhos percorreram a mesa, a janela e minhas mãos. Por um breve instante, seu olhar demorou-se mais do que o habitual, e naquela pequena pausa existia algo estranho — como se uma rachadura quase invisível tivesse surgido numa imagem conhecida demais.

— Você emagreceu — disse ele.

Não como pergunta.

Como constatação.

Limitei-me a dar de ombros.

Era mais fácil do que explicar que, naquela semana, eu tinha a sensação de ter saído de mim mesma e retornado transformada — mais leve, porém não mais livre.

Ele serviu um copo d’água, bebeu um gole e voltou-se para a janela.

Ficamos lado a lado sem nos encarar.

Entre nós instalou-se um silêncio vazio, semelhante a um corredor interminável sem portas.

Pensei que nunca havia reparado na maneira como ele permanecia em silêncio.

O silêncio dele era sólido.

Quase físico.

Não continha expectativa nem significados ocultos.

Apenas existia.

Como os móveis.

Como as paredes.

Como a própria casa.

E, diante dele, aquele outro silêncio — o silêncio do mar, vivo, respirando entre pausas e palavras não ditas — parecia pertencer a outra realidade.

— Vou esquentar o jantar — falei, apenas para preencher o vazio.

Ele assentiu.

Movia-me pela cozinha com lentidão, como se algo invisível e delicado estivesse ao meu redor. Todos os objetos pareciam ligeiramente deslocados, embora eu soubesse que nada havia mudado.

Quando abri a gaveta para pegar os talheres, o envelope permanecia exatamente onde eu o deixara.

Mas já não parecia um objeto qualquer.

Parecia o centro de algo novo.

O ponto ao redor do qual uma realidade diferente começava a se organizar.

Fechei a gaveta com força excessiva.

Meu marido virou-se imediatamente.

— Está tudo bem?

— Sim. A viagem só me deixou cansada.

Ele concordou com um gesto, mas vi uma sombra de dúvida atravessar seu olhar antes de desaparecer.

O jantar transcorreu quase em silêncio.

Falamos sobre trabalho, notícias e assuntos banais.

Eu respondia mecanicamente, como alguém recitando falas decoradas há muito tempo.

Só hesitei uma vez.

Quando ele perguntou:

— A praia estava cheia?

— Não — respondi. — Quase não havia ninguém.

Era verdade.

E, ao mesmo tempo, não era.

Naquela noite, demorei a adormecer.

O quarto parecia excessivamente familiar, delimitado por contornos precisos demais. Permaneci deitada olhando para o teto enquanto escutava a respiração do meu marido — regular, profunda, segura.

Parecia um metrônomo marcando um tempo que já não me pertencia.

Fechei os olhos.

E imediatamente vi a água.

Não como lembrança.

Mas como sensação.

Fria.

Densa.

Envolvente.

E dentro dela havia outra coisa.

Uma presença.

Não ao meu lado.

Mais fundo.

Como se habitasse o próprio tecido da memória.

Abri os olhos de repente.

O quarto estava escuro.

Mas não completamente.

Uma fina faixa de luz atravessava a porta.

Escutei.

Silêncio.

Aquele novo silêncio.

Levantei-me com cuidado para não acordar meu marido e caminhei pelo corredor.

A luz vinha da cozinha.

Eu tinha certeza de que a havia apagado.

Meu coração, porém, permanecia estranhamente calmo.

Como se aquilo não exigisse qualquer reação.

Cheguei à entrada da cozinha e parei.

Primeiro vi a mesa.

Depois a cadeira.

E então o envelope.

Ele não estava mais na gaveta.

Estava sobre a mesa.

Ao lado dele havia a fotografia.

Dei um passo.

Depois outro.

O ar parecia mais pesado, como antes de uma tempestade.

A fotografia estava virada para cima.

Mas não era mais a mesma fotografia.

Percebi isso imediatamente.

Não com a razão.

Mas com um impulso interno, semelhante à sensação de ouvir uma melodia conhecida tocada em outra tonalidade.

Eu continuava junto à água.

Era a mesma noite.

O mesmo movimento de cabeça.

Mas agora ele estava ao meu lado.

Nítido.

Próximo.

Sua mão tocava a minha — sem segurá-la, apenas encostando de leve, como se quisesse confirmar que eu era real.

E o olhar dele…

Não estava direcionado à câmera.

Estava voltado para mim.

Inclinei-me mais perto.

E percebi outro detalhe.

No reflexo da água já não existia a silhueta indefinida.

Agora aparecíamos nós dois.

E atrás de nós havia apenas vazio.

Sem horizonte.

Sem litoral.

Como se o mar se prolongasse para sempre.

Endireitei-me lentamente.

Nesse instante, uma voz surgiu atrás de mim.

— Então você finalmente abriu.

Virei-me.

Ele estava parado na porta.