Chamaram meu codinome pelo rádio… mas a voz do outro lado pertencia a alguém que eu enterrei anos atrás.

PARTE 2 — O Franco-Atirador Que Se Recusava a Errar o Meu Nome

A sala pareceu parar de respirar no instante em que pronunciei aquilo.

Phantom Seven.

Meu codinome.

Não era algo compartilhado. Nem reutilizado. Muito menos um nome que alguém pudesse ouvir “por acaso” em uma frequência qualquer.

O que significava apenas uma coisa.

Aquilo não era um atirador aleatório.

Era alguém que me conhecia.

—

O capitão Morrison não elevou a voz.

E isso tornou tudo ainda pior.

— Tenente Quinn… — disse ele lentamente. — Se esse é o seu codinome… então quem está usando isso lá fora?

Não respondi de imediato.

Porque, no fundo, eu já sabia.

E dizer em voz alta faria tudo se tornar real.

—

O rádio de Ross voltou a chiar.

Estática.

Um sopro baixo.

Então a mesma voz retornou — fria, precisa e assustadoramente familiar.

— Phantom Seven. Vento estabilizado. Aguardando.

Nenhum disparo.

Nenhum impacto.

Apenas… espera.

—

Kendrick bateu a mão na mesa com força.

— Por que ele não atira logo?

Aproximei-me devagar do rádio.

Meu coração não acelerou.

Na verdade, desacelerou.

E aquilo era o mais perigoso.

Alguma parte profunda do meu corpo reconhecia aquele padrão.

Aquilo não era caça.

Era… comunicação.

— Ele não quer acertar ninguém — falei em voz baixa. — Está fazendo pausas de propósito.

— Esperando o quê? — perguntou Morrison.

Olhei fixamente para o alto-falante.

— Por mim.

—

O silêncio voltou a dominar a sala.

Pesado.

Denso.

Impossível de ignorar.

—

— Coloquem-me nessa frequência — pedi.

Kendrick virou o rosto imediatamente.

— Nem pensar—

Morrison o interrompeu antes.

— Faça isso.

Ross hesitou por menos de um segundo antes de empurrar o headset em minha direção.

Meus dedos estavam firmes.

Firmes demais.

Como se a memória muscular tivesse assumido o controle antes da minha mente.

—

Pressionei o transmissor.

Por alguns segundos, permaneci em silêncio.

Apenas ouvindo.

O vento atravessando a estática.

A distância.

O controle absoluto.

Então falei:

— Phantom Seven respondendo.

Atrás de mim, a sala inteira congelou.

—

Três segundos passaram.

Quatro.

Cinco.

Então a voz retornou.

Mais limpa dessa vez.

Mais próxima.

— …Demorou bastante para responder.

Meu peito se contraiu.

Não por medo.

Por reconhecimento.

—

Fechei os olhos por um breve instante.

E pronunciei um nome que não dizia havia quatro anos.

— Ethan.

—

Atrás de mim, cadeiras arrastaram no chão.

Alguém soltou um palavrão baixo.

Morrison ficou completamente imóvel.

—

O rádio não respondeu imediatamente.

Então ouvi uma expiração curta.

Quase uma risada.

— Ótimo — disse ele calmamente. — Eu estava começando a achar que você tinha me esquecido.

—

O mundo pareceu inclinar ao meu redor.

Porque Ethan Hale deveria estar morto.

Morto durante uma extração clandestina que oficialmente jamais aconteceu.

Nenhum corpo.

Nenhum funeral.

Apenas uma linha confidencial em um relatório e a ordem direta para nunca fazer perguntas.

—

— Você morreu — falei.

— Não exatamente — respondeu ele com tranquilidade. — Fui… redirecionado.

—

Kendrick murmurou atrás de mim:

— Isso é loucura.

Mas Morrison permaneceu em silêncio.

Porque ele entendia.

Aquilo já não era mais caos.

Era algo planejado.

Controlado.

Pessoal.

—

— Por que está fazendo isso? — perguntei.

Houve uma pausa maior dessa vez.

Depois:

— Para chamar sua atenção.

—

Senti algo se romper dentro do peito.

Não fraqueza.

Memória.

—

Flash.
Um telhado sob vento gelado. A voz dele no meu ouvido:
“Você não erra. Nunca.”

Flash.
Um alvo a novecentos metros. Minha respiração estável. A correção dele:
“De novo.”

Flash.
A última missão. Fumaça. Silêncio. A voz dele… desaparecendo.

—

— Pessoas morreram — falei, forçando minha voz a permanecer fria.

— Não — ele corrigiu. — Eu apenas transmiti uma mensagem.

— Atirando nas nossas equipes?

— Elas já não eram suas equipes — respondeu. — Não mais.

—

Atrás de mim, o ambiente pareceu mudar de temperatura.

Porque aquela frase acertou em cheio.

—

— O que você quer, Ethan?

Dessa vez ele não hesitou.

— Você.

—

A palavra ecoou mais alto do que qualquer tiro.

—

Kendrick avançou um passo.

— Desliga isso agora.

Mas eu não me movi.

Porque compreendi algo que ele ainda não entendia.

Se eu encerrasse aquela conversa…

Pessoas morreriam.

—

— Você não precisa continuar fazendo isso — falei no rádio. — Conversa comigo.

— Eu já estou conversando.

— Não — respondi calmamente. — Você está encenando.

—

Outra pausa.

Então:

— Ainda continua afiado — murmurou ele.

—

A tela de Ross piscou.

Novas coordenadas apareceram automaticamente.

Transmitidas em tempo real.

—