Este fim de semana foi perfeito. Sem telas, sem stress, apenas nós cinco, amontoados num barco a pedal, a flutuar pelo lago, como fazíamos quando éramos pequenos.
Os gémeos brincavam na frente, tentando molhar um ao outro. Eu estiquei-me na parte de trás, meio a ouvir as risadas deles, meio a observar o meu pai a pedalar com o seu sorriso tranquilo. Mas algo estava errado.
Ele estava sempre a olhar para o relógio.
Não uma vez. Não duas vezes. Constantemente. Como se estivesse a perseguir algo que nenhum de nós podia ver.
«Pai, acalma-te», provoquei finalmente. «Não precisas de estar em mais lado nenhum.»
Ele sorriu, mas não respondeu.
Mais tarde, quando voltámos a remar para a costa e o sol começou a se pôr no céu, não consegui me livrar de uma sensação estranha. Não era apenas por ele estar sempre a verificar o relógio — naquele dia, havia algo diferente nele. Ele estava mais calado do que o normal, mais distante, embora estivesse fisicamente perto de nós. Ele parecia estar presente, mas de alguma forma… ausente.

Tentei ignorar isso. Afinal, estávamos todos juntos pela primeira vez em muitos anos. Por causa do trabalho, da escola e da vida cotidiana, as viagens em família tornaram-se mais raras do que eu gostaria de admitir. Não queria estragar meu humor com reflexões desnecessárias. Mas não parava de olhar para o meu pai quando ele se levantava para se movimentar e olhava novamente para o relógio, franzindo ligeiramente as sobrancelhas.
Depois do passeio de barco, voltámos para a cabana e a noite decorreu como de costume: rimos durante o jantar, jogámos cartas e contámos histórias sobre a nossa infância. Mas, de vez em quando, o meu olhar voltava-se para o meu pai.
Só mais tarde, quando estávamos sentados à volta da fogueira a assar marshmallows, é que reparei que ele parecia ainda mais distante. Voltei a encontrá-lo a olhar para o relógio, mas desta vez o seu rosto estava mais sério, mais concentrado.
«Pai, o que se passa?», perguntei, e a pergunta saiu-me antes que eu conseguisse me conter.
Ele fez uma pausa, respirando lentamente. «Nada, só… tu sabes como é. Estou apenas a controlar o tempo.»
Havia algo estranho na forma como ele disse isso. Ele nunca tinha sido tão evasivo antes. Troquei um olhar com o meu irmão. Algo estava definitivamente errado, mas o meu pai não nos dizia o que era.
Mais tarde, à noite, deitado no meu quarto, ouvi-o a andar pela cozinha. Era um som suave e familiar — ele sempre preparava uma chávena de chá antes de dormir. Mas hoje parecia diferente, um pouco apressado. Como se estivesse à espera de algo.

Na manhã seguinte, acordei na cozinha vazia. A minha mãe já tinha levantado e estava a preparar os últimos pratos para o pequeno-almoço. Os gémeos discutiam pelo último pedaço de bacon. Mas o meu pai não estava em lado nenhum.
Decidi que ele tinha saído para passear ou respirar ar fresco. Mas então notei algo estranho: o relógio que ele verificava constantemente estava sobre a mesa da cozinha.
Isso atingiu-me como uma tonelada de tijolos. Eu tinha visto ele a tirar no dia anterior à noite e observei-o colocá-lo cuidadosamente no balcão, a poucos metros de onde eu estava. Naquela noite, ele não o usou.
Fui tomada por uma onda de inquietação. Peguei no relógio e comecei a examiná-lo pelo verso, na esperança de encontrar algo que explicasse o seu comportamento. E então reparei no que não tinha visto antes: uma pequena gravação na tampa traseira do relógio.
Dizia: «Minha querida Jane, estou sempre à tua espera».
Esse nome atingiu-me como um raio. Jane? Quem é Jane? Não me lembrava de ter ouvido falar de Jane. Voltei a girar o relógio nas mãos, tentando entender o seu significado.
Nesse momento, a minha mãe entrou. Ela olhou para o relógio nas minhas mãos e o seu rosto empalideceu.

«Precisas de te sentar», disse ela, com a voz trémula.
Coloquei cuidadosamente o relógio no lugar, com o coração a bater forte. Algo naquele momento parecia errado. Sentei-me à mesa da cozinha, esperando que a minha mãe explicasse.
«Eu devia ter-te contado antes», começou ela, com a voz trémula. «Mas não consegui. Não assim. O teu pai… ele nem sempre foi como tu pensavas que ele era.»
Senti o peito apertar-se. «O que queres dizer?»
Ela respirou fundo antes de continuar, os olhos cheios de lágrimas. «Antes de me conhecer, antes de tu nasceres, ele tinha outra vida. Ele tinha uma mulher chamada Jane. Eles iam casar-se. Mas algo aconteceu e mudou tudo.»
Ela fez uma pausa, enxugando os olhos com as costas da mão. «A Jane sofreu um acidente, um acidente de carro. O teu pai fez tudo o que podia para salvá-la, mas ela… ela não sobreviveu. Ele ficou devastado e prometeu a ela que iria esperar por ela. Mas depois de tudo… Acho que ele nunca conseguiu seguir em frente. Ele carregou essa promessa consigo todos esses anos. Mesmo quando estávamos juntos. Mesmo quando tu nasceste. Acho que ele sempre esperou que ela voltasse.»
